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BRICS: diálogo, cooperação e uma governança global mais inclusiva

Fonte: Diário do Povo Online    10.09.2026 09h20

Por José Medeiros da Silva

José Medeiros da Silva

Desde sua criação, o BRICS vem se firmando como uma importante plataforma de diálogo, consultas mútuas e cooperação entre países em desenvolvimento. Formado originalmente por cinco países, o grupo reúne hoje 11 membros plenos, representando uma parcela significativa da população mundial e uma ampla diversidade geográfica, cultural e civilizacional.

A trajetória histórica do BRICS mostra que sua força reside justamente em concentrar-se nos problemas e desafios comuns aos seus membros, buscando pontos de convergência e continuidade para a cooperação — e não em se colocar em oposição a outros países ou blocos. Por isso, críticas de que o grupo teria pouca capacidade de realização, ou de que constituiria um bloco “anti-Ocidente”, não fazem tanto sentido.

Além das Cúpulas anuais, que reúnem os líderes para aprofundar temas de interesse comum, compartilhar percepções e experiências e buscar pontos de convergência, iniciativas como o Novo Banco de Desenvolvimento revelam um importante potencial de cooperação prática.

A ampliação do grupo, consolidada na 16ª Cúpula de Kazan, em 2024, aumentou significativamente sua representatividade e sua relevância no cenário internacional. Mas se, por um lado, a entrada de novos membros amplia o potencial de cooperação, por outro também torna mais complexa a coordenação de interesses, prioridades e expectativas. Nesse novo contexto, Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul assumem uma tarefa adicional: contribuir para que o grupo preserve sua dinâmica de diálogo, sua capacidade de construir consensos e sua funcionalidade prática.

A experiência acumulada pelos membros fundadores, conjugada com as potencialidades trazidas pelos novos integrantes, tende a ampliar ainda mais o protagonismo do BRICS e a reafirmar sua importância como espaço de diálogo, cooperação e construção de consensos diante das incertezas e complexidades da atual conjuntura global.

Na 17ª Cúpula de Líderes do BRICS, realizada no Rio de Janeiro em 2025, a presidência brasileira buscou combinar a defesa de uma governança global mais inclusiva com uma agenda voltada para desafios concretos do desenvolvimento. Entre os principais resultados, destacaram-se a primeira declaração do BRICS sobre financiamento climático, a declaração sobre governança global da inteligência artificial e o avanço da cooperação econômica e financeira — incluindo o fortalecimento do Novo Banco de Desenvolvimento e o maior uso de moedas locais.

Nesse processo, Brasil e China têm condições de oferecer uma contribuição importante. Além da dimensão alcançada por suas relações bilaterais, os dois países compartilham o interesse pelo fortalecimento do multilateralismo, pela ampliação da participação dos países em desenvolvimento e pela reforma dos mecanismos de governança global. No âmbito do BRICS, essa convergência pode ser traduzida em cooperação pragmática e na construção de consensos capazes de beneficiar não apenas os dois países, mas o próprio fortalecimento do mecanismo.

Como demonstração da continuidade desse processo, está agendada para os dias 12 e 13 de setembro de 2026, em Nova Délhi, a 18ª Cúpula de Líderes do BRICS. Sob o tema “Construindo resiliência, inovação, cooperação e sustentabilidade”, o encontro acrescenta à agenda do Rio temas essenciais para lidar com os desafios do presente — entre os quais a resiliência desponta como necessidade básica diante das adversidades e turbulências que atravessam o nosso tempo. A expectativa de que um número expressivo de lideranças políticas dos países-membros compareça ao encontro reforça sua relevância e a continuidade desse espaço de diálogo, num ambiente internacional marcado por incertezas e tensões.

O fortalecimento contínuo do BRICS pode abrir caminho para passos ainda mais ousados — capazes de ampliar o conhecimento mútuo, promover maior mobilidade entre empresas, universidades e pessoas, e gerar benefícios econômicos e sociais concretos nas mais diversas áreas da atividade humana. Mais do que ampliar seu protagonismo internacional, esse processo pode contribuir para a construção de uma governança global mais inclusiva, orientada para a paz, a cooperação e a prosperidade dos povos.

(O autor é professor e diretor do Centro de Estudos de Brasil da Universidade de Estudos Internacionais de Zhejiang.)

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