Por Fu Yuanyuan
O Ano da Cultura China-Brasil teve início sob o signo da literatura. Nos dias 10 e 11 de janeiro, os escritores brasileiros Julián Fuks e Jeferson Tenório visitaram a China para um diálogo aprofundado com representantes chineses do meio literário, da tradução e da pesquisa acadêmica. Tendo a literatura como ponte e a tradução como embarcação, o encontro abriu este ano cultural com uma atmosfera marcada pelo intercâmbio humano e intelectual.
A série de eventos, intitulada “Entre o Espelho e a Lâmpada: Diálogo da Literatura Contemporânea Sino-Brasileira”, foi organizada conjuntamente pelo Departamento de Relações Internacionais da Associação de Escritores da China, pela Faculdade de Línguas Estrangeiras da Universidade de Pequim e pelo Centro da Cultura Brasileira da mesma universidade. Os debates concentraram-se em três eixos: criação literária, expressão da realidade social e circulação translinguística.
Ambos os escritores brasileiros são vencedores de importantes prêmios literários nacionais e internacionais. Suas obras representativas, "A Resistência", de Fuks, e "O Avesso da Pele", de Tenório, foram publicadas em chinês em 2024 pela Editora Lijiang, oferecendo ao público chinês uma janela essencial para compreender os pulsos da literatura brasileira contemporânea.

Escritores brasileiros Julián Fuks e Jeferson Tenório dialogam com a escritora chinesa Liang Hong (segunda à esquerda), em 10 de janeiro. Foto: Fu Yuanyuan, Diário do Povo Online
Ao comentar as obras, a professora da Universidade Renmin da China e escritora chinesa, Liang Hong, observou que ambas alcançam “o núcleo das emoções humanas universais”. Segundo ela, "A Resistência" narra a jornada identitária de um descendente de argentinos nascido no Brasil, abordando o tema eterno do desenraizamento e da busca por pertencimento, enquanto "O Avesso da Pele" examina as experiências existenciais da população negra brasileira, revelando tensões emocionais e existenciais em um contexto de racismo estrutural. É justamente essa atenção à dor, à confusão e à resistência humanas que permite à literatura brasileira tocar leitores de culturas distantes.
Tenório ressaltou que a leitura de literaturas estrangeiras permite romper estereótipos e compreender melhor a complexidade de outros países. Para ele, a literatura funciona como um encontro entre estranhos, no qual leitores podem se identificar com histórias aparentemente distantes. Ao mencionar a presença de Crime e Castigo, de Dostoiévski, em O Avesso da Pele, o escritor destacou que diferentes tradições literárias se conectam por meio das experiências existenciais compartilhadas.
Fuks, por sua vez, enfatizou o caráter dialógico da literatura contemporânea. Segundo ele, sua escrita não busca representar uma identidade nacional fixa, mas aproximar pessoas por meio da palavra. Para o autor, a ideia do escritor isolado perdeu força, dando lugar a uma construção coletiva do que merece ser escrito e lido, especialmente quando o diálogo se dá entre culturas distintas. Nesse processo, o afeto ocupa um papel central, pois só aquilo que nos afeta é capaz de gerar verdadeiro interesse e empatia.

Atividade do dia 10 de janeiro. Foto: Fu Yuanyuan, Diário do Povo Online
Alguém já comparou a tradução a “atravessar montanhas para levar uma tigela de água”: algo pode se perder no caminho, mas a água dos rios e da chuva pode torná-la mais abundante, quem sabe até transformá-la em vinho. Essa metáfora tornou-se um consenso entre escritores e tradutoras durante o diálogo.
Fuks observou que a tradução envolve inevitavelmente um exercício de transformação, no qual o original se altera e algo se perde, mas também se cria. Nesse processo, surge um novo ritmo e uma nova língua, com novos ecos e novas rimas, capazes de produzir uma forma particular de beleza. Para ele, o essencial da tradução está na entrega sincera: mais do que compreender todo o contexto, importa reconhecer os afetos em jogo em cada momento e tentar reconstituí-los, pois é aí que se realiza a tradução primordial.
Tenório afirmou que a tradução é um processo de cocriação, no qual o tradutor refaz, em outra língua, o esforço do escritor, ao transformar pensamento e experiência em palavras. Entre perdas inevitáveis, cabe ao tradutor preservar o sentido original da obra sem se afastar da cultura de chegada, pois, segundo ele, a tradução consiste justamente nesse jogo de tentar manter um sentido que não é exatamente o livro, mas que, ao mesmo tempo, continua sendo ele.

Escritores brasileiros Julián Fuks e Jeferson Tenório dialogam com as tradutoras Lu Zhengqi (segunda à esquerda) e Wang Yunhan (primeira à direita), em 11 de janeiro. Foto: Fu Yuanyuan, Diário do Povo Online
As práticas das duas tradutoras chinesas refletem exatamente essa concepção. Lu Zhengqi, tradutora de A Resistência, buscou preservar o ritmo e a cadência da prosa original, enquanto Wang Yunhan, tradutora de O Avesso da Pele, enfatizou a “equivalência de sensações”, lendo e relendo os textos para oferecer aos leitores chineses uma experiência próxima à do leitor em língua portuguesa.

Escritores brasileiros Julián Fuks e Jeferson Tenório dialogam com as tradutoras Lu Zhengqi (segunda à esquerda) e Wang Yunhan (primeira à direita), em 11 de janeiro. Foto: Fu Yuanyuan, Diário do Povo Online
Para Fan Xing, professora associada da Universidade de Pequim e uma das organizadoras do evento, o diálogo literário contribui para romper estereótipos que ainda associam a literatura brasileira exclusivamente ao "realismo mágico". Ela destacou que o Ano da Cultura China-Brasil representa uma oportunidade crucial para fortalecer cooperações editoriais, formar novos tradutores e estabelecer mecanismos duradouros de intercâmbio cultural.
A visita à China também permitiu aos escritores uma compreensão mais ampla da sociedade chinesa. Tenório observou que a gentileza e a hospitalidade das pessoas desafiam imagens estereotipadas, frequentemente transmitidas por narrativas de cunho político. Fuks afirmou ter encontrado uma China construída sobretudo pelas pessoas e pela abertura ao diálogo, experiência que contribuiu para desfazer ideias pré-concebidas e revelar um país mais real, mais franco e acolhedor.
Sob o prelúdio do Ano da Cultura China-Brasil, esse diálogo literário demonstrou que a distância geográfica não impede a ressonância cultural. Ao fortalecer a ponte da tradução e do intercâmbio humano, o encontro abriu caminho para um ano de compreensão em crescimento, no qual literatura, afeto e diálogo continuarão a atravessar mares e montanhas.