
Compra de 200 aeronaves da fabricante americana é vista como resposta à forte demanda do setor aéreo na China
A decisão da China de adquirir 200 aeronaves da Boeing deverá fortalecer os laços comerciais entre China e Estados Unidos, especialmente no setor de aviação, afirmam analistas da indústria. O acordo é interpretado como um sinal parcial de distensão nas relações industriais entre os dois países, após quase uma década de tensões.
O Ministério do Comércio da China anunciou na quarta-feira que o país comprará 200 aviões da Boeing “de acordo com as necessidades de desenvolvimento do transporte aéreo e com base em princípios comerciais”, em resposta a questionamentos sobre declarações recentes do presidente dos EUA, Donald Trump, a respeito do acordo.
Segundo um representante do ministério, a aviação é um setor estratégico para a cooperação mutuamente benéfica entre as duas economias.
Os Estados Unidos também garantirão o fornecimento adequado de motores e peças de reposição para operadores chineses, de acordo com comunicado publicado no site oficial do ministério.
As declarações ocorreram poucos dias após a Boeing afirmar que avançou na reabertura do mercado chinês durante a visita de Estado de Donald Trump a Beijing. O presidente americano esteve acompanhado por uma delegação de executivos de grandes empresas dos EUA, incluindo o CEO da Boeing, Kelly Ortberg.
“Tivemos uma viagem muito bem-sucedida à China e alcançamos nosso principal objetivo de reabrir o mercado chinês para pedidos de aeronaves da Boeing”, informou a companhia em comunicado enviado ao jornal China Daily.
Se confirmado, o acordo marcará o primeiro grande compromisso de compra de aeronaves da Boeing pela China em quase dez anos. O último grande contrato ocorreu durante a visita anterior de Trump ao país, em 2017, quando compradores chineses assinaram acordos para a aquisição de 300 aviões da fabricante americana, em um negócio avaliado em mais de US$ 37 bilhões.
Desde então, a Boeing enfrentou dificuldades para garantir grandes encomendas de companhias aéreas chinesas, em meio às tensões geopolíticas e à suspensão global do Boeing 737 MAX após dois acidentes fatais ocorridos em 2018 e 2019.
A China já foi um dos mercados internacionais mais importantes para a Boeing. Antes de 2019, companhias aéreas chinesas respondiam por cerca de um quarto das entregas globais da empresa. No entanto, a presença da fabricante americana enfraqueceu significativamente nos últimos anos, enquanto a rival europeia Airbus ampliou sua participação no mercado chinês.
Atualmente, a Airbus detém cerca de 55% do mercado chinês de aeronaves comerciais e conquistou diversos contratos de grande porte com companhias do país, incluindo centenas de aeronaves da família A320neo.
“A aviação sempre foi um elo importante nas relações econômicas entre China e Estados Unidos, e os pedidos de aeronaves frequentemente funcionam como um termômetro das relações bilaterais”, afirmou Zhu Keli, diretor fundador do Instituto Chinês da Nova Economia.
Segundo Zhu, o compromisso com a Boeing sinaliza uma mudança em direção a uma relação mais pragmática, com ambos os lados retomando a cooperação baseada em interesses comerciais.
“Isso demonstra que a cadeia global de suprimentos da aviação continua profundamente interligada”, disse. “Setores de alta complexidade industrial, como a fabricação de aeronaves comerciais, são difíceis de dissociar da divisão global do trabalho”.
Para a China, a iniciativa também reforça a disposição do país em manter cadeias industriais globais estáveis e abertas. Já para os Estados Unidos, o acordo evidencia o reconhecimento da importância estratégica do mercado chinês, acrescentou Zhu.
Além das questões geopolíticas, analistas afirmam que a compra atende às necessidades operacionais urgentes das companhias aéreas chinesas.
Nos últimos nove anos, a Airbus consolidou gradualmente sua liderança na China, tornando as empresas aéreas cada vez mais dependentes de um único fornecedor. A reintrodução de aeronaves da Boeing no mercado poderia ajudar a equilibrar a estrutura de fornecimento e aumentar a resiliência do setor, avaliou Zhu.
Ao mesmo tempo, as companhias chinesas enfrentam o envelhecimento de suas frotas e forte demanda por expansão da capacidade operacional. Enquanto isso, a produção do C919 — aeronave desenvolvida pela estatal chinesa COMAC — ainda está em fase de desenvolvimento, e a carteira de pedidos da Airbus segue elevada.
“Nesse contexto, 200 aeronaves da Boeing poderiam ajudar a preencher lacunas de capacidade no curto prazo e garantir operações estáveis nas principais rotas”, afirmou Zhu.
Os compromissos dos EUA em assegurar o fornecimento de motores e componentes também podem aliviar a pressão sobre a manutenção das companhias aéreas e reduzir riscos operacionais, acrescentou.
Apesar disso, Zhu alertou que o acordo representa apenas um degelo parcial, e não uma recuperação completa da cooperação aeronáutica entre China e Estados Unidos.
Embora as compras de aeronaves e as cadeias de suprimentos possam se expandir, ainda existem barreiras em áreas como certificação de aeronavegabilidade, compartilhamento de tecnologias centrais e integração industrial mais profunda. A certificação do C919 por reguladores ocidentais continua sendo um dos principais obstáculos, refletindo a persistente competição tecnológica entre os dois países.
Segundo Zhu, a cooperação futura deve seguir um modelo de “forte colaboração comercial, mas com cautela tecnológica”, já que tecnologias sensíveis — como motores aeronáuticos e sistemas avançados de aviônica — continuam sob rígido controle.
Tanto a Boeing quanto a Airbus projetam que a China se tornará o maior mercado de aviação do mundo por volta de 2043, com uma frota comercial estimada entre 9 mil e 10 mil aeronaves.