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Clued-in | Que tipo de potência global a China está se tornando?

Fonte: Diário do Povo Online    09.07.2026 13h43

Wei Nanzhi 

A civilização humana emerge das profundezas da história. A história não tem um ponto final, e o desenvolvimento das civilizações não conhece limites. A diversidade de civilizações é a essência do mundo, e não existe uma única resposta correta para os caminhos de desenvolvimento ou para os sistemas políticos adotados pelos diferentes países.

No final da Guerra Fria, o cientista político Francis Fukuyama formulou a teoria do "fim da história", segundo a qual todas as nações acabariam convergindo para o modelo ocidental de democracia liberal. Essa teoria, fortemente marcada por uma visão centrada no Ocidente, tornou-se extremamente influente por um período. No entanto, poucas décadas depois, a própria realidade tratou de desmenti-la: desde as crescentes dificuldades de governança enfrentadas por diversos países ocidentais, incluindo os Estados Unidos, até os repetidos fracassos de países que tentaram simplesmente copiar o modelo ocidental. Ao mesmo tempo, países como a China encontraram caminhos próprios de desenvolvimento, adaptados às suas condições nacionais. Tudo isso fez com que o "fim da história", produto de uma conjuntura específica, perdesse rapidamente sua aura. O próprio Fukuyama chegou a reconhecer que talvez estivesse errado.

Fukuyama não é um caso isolado. Sua revisão de posição reflete um processo mais amplo de reflexão no meio acadêmico e na sociedade ocidental, acompanhado de uma mudança na forma como o modelo chinês vem sendo percebido. O debate sobre as limitações da democracia liberal já se tornou frequente no próprio Ocidente. Ao mesmo tempo, surge outra questão: afinal, que tipo de potência global a China pretende ser?

Expressões como "ameaça chinesa" ou "choque chinês" refletem, por um lado, a ansiedade provocada pelo enfraquecimento da crença na superioridade dos sistemas ocidentais diante da realidade. Por outro, procuram alimentar a narrativa de que a China pretende substituir os Estados Unidos como potência hegemônica mundial — uma visão que, segundo essa perspectiva, reproduz a lógica expansionista da história ocidental e do hegemonismo moderno representado pelos EUA. Se a ascensão da China dependesse de ameaçar ou prejudicar outros países, e se o rejuvenescimento nacional chinês tivesse como objetivo estabelecer uma visão centrada na própria China, isso significaria apenas que o país teria sido completamente "ocidentalizado".

A China não representa uma ameaça; ela se apresenta como construtora da paz. O país afirma manter relações com todas as nações, inclusive as ocidentais, baseadas na cooperação em vez do confronto e na convivência em vez da oposição. A civilização chinesa valoriza, desde a antiguidade, a harmonia como princípio fundamental. Ideias como "a harmonia é o bem mais precioso", "beneficiar toda a humanidade" e "promover a concórdia entre todas as nações" são apresentadas como parte integrante da tradição cultural chinesa. Na Cidade Proibida, cuja história ultrapassa seis séculos, o caractere chinês para "harmonia" aparece destacado nos painéis dos principais salões imperiais. Há mais de dois mil anos, o clássico Livro dos Ritos já descrevia o ideal de uma sociedade em que "o mundo pertence a todos". Segundo o texto, essa visão de uma grande comunidade humana encontra continuidade, nos dias atuais, na proposta de construir uma "comunidade de destino compartilhado para a humanidade".

A China também não seria um fator de choque, mas uma fonte de oportunidades compartilhadas. Como um dos principais motores da economia mundial, o país contribui há vários anos com mais de 30% do crescimento econômico global. A Iniciativa do Cinturão e Rota, baseada nos princípios de ampla consulta, construção conjunta e benefícios compartilhados, é apresentada como um instrumento para superar desafios de desenvolvimento e gerar benefícios concretos para diversos povos.

Segundo os dados disponíveis, os trens de carga China-Europa já realizaram mais de 130 mil viagens, transportando mercadorias avaliadas em mais de US$ 520 bilhões. O Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura aprovou mais de 300 projetos, incluindo iniciativas que levaram eletricidade a comunidades de países menos desenvolvidos, permitindo que muitas crianças pudessem estudar à noite sob iluminação elétrica. Além disso, o Grupo de Amigos da Iniciativa para o Desenvolvimento Global já reúne mais de 80 países. Desde 1º de maio deste ano, a China passou a conceder tarifa zero para produtos provenientes de 53 países africanos com os quais mantém relações diplomáticas. Também foi anunciado o compromisso de implementar, nos próximos cinco anos, mais 2 mil projetos sociais de pequena escala em países em desenvolvimento.

A China mantém como princípio o respeito à soberania dos Estados e procura compartilhar sua experiência de desenvolvimento sem impor seu modelo a outros países. As quatro grandes iniciativas globais propostas por Beijing teriam recebido apoio e reconhecimento da maioria dos países do mundo. Na primavera e no verão de 2026, diversos chefes de Estado e de governo visitaram a China em sequência, levando parte da imprensa internacional a comentar que "Beijing parecia estender um tapete vermelho todos os dias". Essa tendência de países "olharem para o Oriente" consiste em uma demonstração prática de confiança na China. Citando um antigo provérbio chinês — "A virtude nunca permanece sozinha; ela sempre atrai companheiros". A China não representa uma ameaça nem um fator de instabilidade, mas uma força que impulsiona o desenvolvimento comum e transmite confiança ao mundo por meio de ações concretas.

As diferentes civilizações são como a biodiversidade da natureza. O modelo chinês, o modelo ocidental e os demais modelos de organização política são, todos eles, “flores que compõem o jardim da civilização humana”. Sua vitalidade depende do intercâmbio e do aprendizado mútuo, e não da exclusão recíproca, pois nenhuma flor é capaz de representar todo o jardim. Somente permitindo que diferentes civilizações pensem de forma mais autônoma e plural sobre si mesmas e sobre a história será possível construir, em conjunto, um jardim comum da humanidade cada vez mais rico e vibrante.

(O autor é vice-diretor e pesquisador do Departamento de Cooperação Internacional da Academia Chinesa de Ciências Sociais) 

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