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Carta de Lhasa: sonhos de futebol a 4.700 metros de altitude

Fonte: Diário do Povo Online    20.07.2026 10h58

Jogadores disputam uma partida no município de Zangbi, no condado de Lhari, em Nagqu, na Região Autônoma de Xizang, no sudoeste da China, em 18 de julho de 2026. (Zhou Yulong/Xinhua)

Zhou Yulong, Xinhua

Enquanto torcedores de futebol em todo o mundo acompanham a Copa do Mundo da FIFA, com suas estrelas, espetáculo e o cobiçado troféu dourado, eu estava ao lado de um curral de gado, a 4.700 metros acima do nível do mar, observando crianças perseguirem um tipo diferente de glória no futebol. O prêmio para os campeões não é a taça da Copa do Mundo, mas bananas, maçãs ou talvez um pacote de sabão em pó. A meio mundo de distância do grande palco montado na América do Norte, a alegria que o futebol proporciona é exatamente a mesma neste canto da Região Autônoma de Xizang, no sudoeste da China.

Desde o ano passado, quando me mudei para Xizang para trabalhar como repórter, tenho me emocionado repetidamente com a paixão das crianças locais pelo futebol. Durante viagens de trabalho, enquanto nosso veículo percorre estradas sinuosas entre cidades e vilarejos dessa região montanhosa, frequentemente avisto campos de futebol de todos os tamanhos, onde jovens correm livres, perseguindo uma bola.

Ao pé do Monte Qomolangma, o pico mais alto do mundo, entrevistei crianças do condado de Dingri que jogavam em um campo recém-construído um ano após um terremoto devastador. "Voltar a jogar futebol fez a vida parecer normal novamente", disseram elas. Já no condado de Lhorong, em Qamdo, acompanhei um torneio da "Super Liga" de uma vila, que atraiu trabalhadores migrantes de volta para casa vindos de diferentes partes da China — simplesmente para jogar bola.

Desta vez, viajei até o município de Zangbi, no condado de Lhari, onde um terreno de terra batida ao lado de um curral foi transformado em campo de futebol. As linhas eram feitas por muros de terra, e as traves, por estacas de madeira. Não havia arquibancadas nem gols de verdade.

Sonam Jigme (1º à direita) entrega aos integrantes da equipe campeã uma réplica da taça da Copa do Mundo, um troféu artesanal feito com legumes e medalhas após uma partida no município de Zangbi, no condado de Lhari, em Nagqu, Região Autônoma de Xizang, sudoeste da China, em 18 de julho de 2026. (Zhou Yulong/Xinhua)

O responsável por organizar as partidas é Sonam Jigme, um pastor de 22 anos que, nos fins de semana — quando as crianças voltam da escola para as áreas de pastagem — também atua como treinador, árbitro e organizador dos jogos.

Os prêmios podem ser bananas, melancias, repolhos, sabão em pó ou qualquer outra coisa que Sonam Jigme consiga reunir.

As competições também recebem nomes. Se o prêmio para os vencedores for um cacho de bananas, o torneio vira a Copa da Banana. Se for uma melancia, passa a ser a Copa da Melancia. O pódio é feito com caixas de papelão, e uma funda tradicional usada pelos pastores serve como faixa do campeão.

Quando o árbitro apitou o início da partida, todas as crianças correram em direção à bola. Um dos meninos continuou correndo mesmo com o cadarço desamarrado. Outro caiu, tirou a poeira da roupa e se levantou imediatamente. Os passes nem sempre eram precisos, e muitos chutes saíam pela linha de fundo, mas ninguém desistia.

Depois de marcar um gol, um jogador abriu os braços e atravessou o campo correndo, imitando a comemoração característica de Cristiano Ronaldo. À beira do campo, as crianças menores gritavam e vibravam. O vento levava suas vozes, mas logo outro coro de comemoração tomava conta do lugar.

Mesmo após um ano vivendo em Xizang, a altitude continua me afetando mais do que imagino. Minha cabeça latejava, meu peito parecia apertado e eu ficava sem fôlego após caminhar apenas alguns passos. Mas, à medida que me envolvia com a partida, vendo as crianças caírem, se levantarem e comemorarem cada gol, o desconforto parecia desaparecer por alguns instantes.

Sonam Jigme (1º à direita) grava vídeos dos jogadores no município de Zangbi, no condado de Lhari, em Nagqu, Região Autônoma de Xizang, sudoeste da China, em 18 de julho de 2026. (Zhou Yulong/Xinhua)

Em julho de 2025, Sonam Jigme começou, pouco a pouco, a preparar aquele espaço para as crianças: retirou pedras, instalou estacas de madeira e demarcou os limites do campo.

Para as crianças das áreas de pastagem, o campo acompanha sua rotina. Durante o verão, elas jogam nas pastagens de verão; no restante do ano, nas pastagens de inverno. Por isso, a maior parte dos treinos e partidas acontece nesses locais.

Sonam Jigme procura fazer com que cada jogo pareça uma partida oficial.

Antes do apito inicial, ele orienta as crianças a seguirem um ritual: formar filas por equipe, cumprimentar os adversários, ocupar suas posições e iniciar o jogo. Também grava, com seu celular, a apresentação dos jogadores antes da partida, pedindo que cada um diga seu nome e o time pelo qual irá jogar.

Todos os fins de semana, Sonam Jigme organiza treinos para mais de 20 crianças. Ele mostra vídeos de partidas de alto nível e conta histórias sobre jogadores famosos, falando de seus nomes, cidades de origem e trajetórias. Foi assim que as crianças das pastagens conheceram craques como Lionel Messi e Lamine Yamal.

Um jogador posa antes da partida ao lado de uma réplica da taça da Copa do Mundo preparada por Sonam Jigme, no município de Zangbi, condado de Lhari, em Nagqu, Região Autônoma de Xizang, sudoeste da China, em 18 de julho de 2026. (Zhou Yulong/Xinhua)

Sonam Jigme se apaixonou pelo futebol ainda no ensino fundamental, quando sua escola não possuía campo nem chuteiras. Um campo só apareceu mais tarde, no ensino médio, mas ainda sem treinamento adequado. No primeiro ano dessa etapa escolar, ele chegou a treinar por um breve período em uma escola esportiva de Xizang.

"Quando éramos crianças, a maioria de nós tinha sonhos enormes — ser astronauta ou estrela do esporte, jogando diante de milhares de pessoas", contou Sonam Jigme. "O que estou fazendo talvez não mude a vida dessas crianças da noite para o dia, mas faz com que elas percebam que aquilo que amam merece ser levado a sério".

Neste ano, vídeos das crianças jogando futebol publicados por Sonam Jigme começaram a circular nas redes sociais. Pessoas que assistiram às gravações enviaram bolas novas e uniformes. Um cabeleireiro chegou até à comunidade e deu a cada criança o corte de cabelo que ela desejava, fazendo-as parecer ainda mais com seus ídolos.

Sonam Jigme espera que seus vídeos façam com que mais pessoas conheçam essas crianças.

"Se alguma delas demonstrar talento, talvez um dia possa receber um treinamento melhor e jogar em um campo maior", afirmou.

Nos últimos anos, o futebol passou a fazer parte cada vez mais da vida das crianças em Xizang. Campos padronizados, aulas escolares e programas de formação de jovens atletas vêm sendo ampliados. Em 2025, treze escolas da região foram reconhecidas como escolas nacionais com programas especiais de futebol. Até o fim do ano passado, Xizang, que possui mais de 3 milhões de habitantes, contava com 1.136 campos de futebol, incluindo 180 campos oficiais para partidas de 11 contra 11, segundo o departamento regional de esportes.

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