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Computação no espaço: levando data centers para a órbita

Fonte: Diário do Povo Online    29.07.2026 13h23

Wang Zheng, Diário do Povo

Primeiro satélite piloto de demonstração tecnológica da Constelação Tiansuan, desenvolvida pela Universidade de Correios e Telecomunicações de Beijing. (Foto cedida pela Universidade de Correios e Telecomunicações de Beijing)

A China está acelerando o desenvolvimento da computação baseada no espaço — uma tecnologia emergente que busca transferir capacidade computacional da Terra para órbita. Antes considerada um conceito futurista, essa tecnologia agora está entrando na fase de verificação prática e implantação no mundo real.

No início deste ano, a empresa aeroespacial comercial Adaspace Technology Co., Ltd. (ADAspace), em parceria com a Universidade Jiao Tong de Shanghai, utilizou com sucesso capacidade de computação espacial para controlar um robô terrestre.

Durante a demonstração, um usuário enviou comandos em linguagem natural a partir da Terra. Um grande modelo de inteligência artificial instalado em um satélite em órbita processou a solicitação, transmitiu as instruções por meio de um enlace de comunicação entre espaço e solo e orientou o robô a concluir as tarefas designadas.

O feito marcou um novo avanço nos esforços da China para construir uma infraestrutura de computação no espaço. Por que um sistema desse tipo é necessário e como a China pretende impulsionar seu desenvolvimento? O Diário do Povo conversou com especialistas para explorar essas questões.

“A computação baseada no espaço refere-se a uma infraestrutura de informação espacial construída por meio da implantação, em órbita, de sistemas computacionais, armazenamento de dados e instalações de comunicação de alta velocidade, integrando capacidades de computação, armazenamento e transmissão de dados”, explicou He Baohong, engenheiro-chefe da Academia Chinesa de Tecnologia da Informação e Comunicações (CAICT).

O impulso para desenvolver a computação espacial é motivado por três necessidades urgentes.

A primeira é o aumento da distância entre a crescente demanda por capacidade computacional e as limitações dos recursos energéticos.

Guo Liang, engenheiro-chefe do Instituto de Computação em Nuvem e Big Data da CAICT, afirmou que o rápido desenvolvimento da inteligência artificial generativa fez com que a demanda por poder computacional crescesse de forma exponencial. Estatísticas indicam que os data centers da China consumiram 196 bilhões de quilowatts-hora de eletricidade em 2025.

Os data centers terrestres enfrentam restrições cada vez maiores devido ao alto consumo energético, ao aumento dos custos de refrigeração e à disponibilidade limitada de terrenos. Ao utilizar a abundante energia solar existente no espaço para geração contínua de eletricidade, a computação baseada no espaço oferece uma nova abordagem para enfrentar esses desafios.

O segundo fator impulsionador é a crescente necessidade de processamento mais rápido de dados.

Tradicionalmente, os dados de satélite seguem um fluxo de trabalho de “captar, transmitir e depois processar”, o que significa que a obtenção de dados de sensoriamento remoto utilizáveis pode levar várias horas. Em aplicações como prevenção de incêndios florestais, resposta a enchentes e proteção de direitos marítimos, cada minuto é importante.

Wang Shangguang, diretor da Escola de Ciência da Computação da Universidade de Correios e Telecomunicações de Beijing, afirmou que a Constelação Tiansuan, desenvolvida por sua equipe, utiliza inteligência artificial embarcada para processar dados diretamente em órbita, permitindo que informações importantes sobre alvos sejam transmitidas à Terra em poucos minutos. Em situações de resposta a emergências, isso poderia transformar a gestão de desastres, passando de operações de resgate após o desastre para sistemas de alerta antecipado.

O terceiro fator é a importância estratégica dos recursos orbitais e do espectro de radiofrequência, ambos limitados e não renováveis.

À medida que os países competem por esses recursos estratégicos, o desenvolvimento da computação baseada no espaço tornou-se não apenas uma prioridade industrial, mas também um componente importante da infraestrutura digital e da segurança.

Segundo Guo, o desenvolvimento da computação espacial pode ser dividido em três etapas.

A primeira etapa envolve a computação em satélite único. Satélites individuais são equipados com módulos de computação de inteligência artificial com determinado poder de processamento para realizar análises preliminares de imagens de sensoriamento remoto, incluindo filtragem, remoção de nuvens e reconhecimento de alvos, antes de transmitir os dados úteis de volta à Terra.

A segunda etapa é a formação de redes de constelações, na qual múltiplos satélites são conectados por meio de enlaces entre satélites para formar uma rede local espacial. Isso permite computação distribuída, alocação dinâmica de recursos e processamento colaborativo de tarefas entre diferentes satélites.

A etapa final é o estabelecimento de uma rede de computação espacial, na qual grandes nós computacionais dedicados são implantados em órbita para formar clusters de computação no espaço, permitindo uma integração contínua entre os recursos computacionais espaciais e terrestres.

A indústria chinesa de computação baseada no espaço já passou da fase de pesquisa teórica para a verificação prática em órbita e o início da implantação de redes de satélites computacionais.

A validação tecnológica alcançou avanços importantes. A China realizou testes em órbita envolvendo múltiplos satélites e lançou com sucesso diversos satélites experimentais equipados com cargas úteis de computação de borda, comprovando a viabilidade do uso de componentes comerciais no ambiente espacial.

O país também obteve progressos significativos nas comunicações entre satélites, com enlaces de comunicação a laser desenvolvidos internamente realizando testes de transmissão de alta velocidade entre múltiplos satélites.

A implantação de constelações de satélites está entrando em uma fase de rápida expansão. Constelações de banda larga em órbita baixa da Terra, incluindo a Constelação Qianfan, já iniciaram operações regulares de lançamento. Uma nova geração de satélites está sendo projetada com capacidade reservada para cargas computacionais, estabelecendo as bases para integrar comunicação, navegação e sensoriamento remoto.

A ADAspace apresentou um plano que prevê a implantação de uma rede composta por 2.800 satélites computacionais. A GalaxySpace, uma das principais fornecedoras de soluções de internet via satélite e fabricante de satélites, já lançou mais de 40 satélites e está desenvolvendo uma plataforma de terceira geração projetada especificamente para computação espacial.

Um ecossistema industrial integrado está tomando forma. Organizações como um comitê profissional de computação espacial e o Instituto de Pesquisa de Computação Inteligente Espacial de Beijing foram estabelecidas, enquanto o Centro de Inovação em Computação Espacial de Beijing iniciou oficialmente suas operações.

A China divulgou ainda uma lista de 10 projetos prioritários voltados para tecnologias-chave da computação baseada no espaço. Mais de 10 empresas líderes, incluindo LandSpace, GalaxySpace, ZTE e BOE, estão participando desses projetos, abrangendo toda a cadeia industrial, desde plataformas de satélite, chips e cargas úteis até redes, software e aplicações.

Os cenários de aplicação estão evoluindo da simples disponibilidade funcional para uma utilização mais eficiente e avançada. A computação baseada no espaço já apresenta avanços iniciais na adoção comercial em setores de consumo e industriais. Em situações de emergência, como prevenção de incêndios florestais e gestão de enchentes, dados de sensoriamento remoto processados por computação em órbita permitem a distribuição de informações sobre desastres em escala de minutos, formando um ciclo comercial inicial.

“A maior vantagem da China está em sua capacidade de coordenar recursos de toda a cadeia industrial”, afirmou Guo.

Aproveitando sua forte base manufatureira e seu enorme mercado interno, a China está buscando um caminho de desenvolvimento que integre profundamente comunicação, navegação, sensoriamento remoto e computação em constelações de satélites multifuncionais.

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