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Especialidade gastronômica de Nanjing anuncia chegada do verão

Fonte: Diário do Povo Online    30.04.2026 10h43

Às seis da manhã, o ritmo de Nanjing, capital da província de Jiangsu, já está em movimento. Ao longo da Rua Wangfu, o vapor sobe no ar fresco, misturando-se ao murmúrio das vozes. Do lado de fora de uma modesta loja de 40 metros quadrados, uma fila se forma, com aqueles na frente chegando muito antes do amanhecer.

Alguns na fila são frequentadores assíduos do bairro, com sacolas de pano nas mãos após seus exercícios matinais. Outros são visitantes de longe, com malas aos pés, atraídos pelo boca a boca e pelas redes sociais. Todos estão esperando pela mesma coisa: uma especialidade local conhecida como wufan, ou "arroz preto".

Lá dentro, Shi Fangpo, de 73 anos, e sua pequena equipe trabalham desde as 2 da manhã. Quando os primeiros clientes chegam, as primeiras fornadas do dia já estão quase prontas — fumegantes, perfumadas e escuras como laca polida. Para muitos nesta cidade do leste da China, é mais do que um café da manhã — marca a chegada do verão.

O dia 5 de maio deste ano coincide com o Li Xia, o Início do Verão. Em Nanjing, a ocasião está intimamente ligada ao costume de comer arroz preto, que se acredita nutrir o corpo com a chegada do clima mais quente.

Um ditado popular diz: "Coma arroz preto no Li Xia e você não será incomodado por mosquitos o ano todo". Por trás disso, existe um princípio da medicina tradicional chinesa: à medida que as temperaturas sobem e a energia yang se eleva, alimentos que ajudam a restaurar o equilíbrio e acalmar a mente são preferidos.

O ingrediente principal são as folhas de nanzhu (vaccinium bracteatum thunb), também conhecidas como erva-do-arroz-preto. Colhidas no início da primavera, as folhas são trituradas para extrair um suco verde, ligeiramente amargo. O arroz glutinoso é embebido nesse suco, absorvendo os pigmentos naturais antes de ser cozido no vapor.

O que se segue é uma transformação gradual. O arroz fica verde e depois azul sob o vapor. Uma vez exposto ao ar, adquire uma cor preta-arroxeada brilhante, exalando um leve aroma herbal do campo.

"É uma arte que depende da experiência", diz Shi. "É preciso ajustar tudo — o tempo de molho, o calor — de acordo com o estado do tempo".

Ela prepara arroz preto há quase quatro décadas, manuseando mais de 150 quilos de arroz glutinoso por dia.

Em sua loja, o arroz é servido em porções compactas, acompanhado de youtiao (massa frita) e legumes em conserva. Os clientes podem escolher entre uma versão macia e tradicional ou uma mais crocante, frita duas vezes para obter a textura desejada.

"A versão crocante é mais popular entre os jovens", diz Shi. "A versão mais macia é a preferida por muitos clientes mais velhos".

Apesar das variações, Shi prepara cada porção com cuidado. "Dá mais trabalho", diz ela, "mas o que importa é que as pessoas saiam satisfeitas".

Antigamente, o arroz preto era limitado pela curta temporada de colheita das folhas de nanzhu, que geralmente durava apenas algumas semanas em torno do Festival Qingming e da Chuva de Grãos, em abril.

Hoje, a logística aprimorada permite que folhas frescas sejam obtidas de Jiangxi, Anhui e Guizhou, estendendo a produção para os meses mais frios.

Mesmo assim, a demanda ainda atinge o pico por volta do li xia, quando muitos moradores fazem fila para comprar uma porção recém-preparada.

Para clientes mais jovens como Hu Zixuan, o arroz oferece um pequeno remédio para o cansaço moderno. Depois de terminar um turno noturno, ela costuma voltar para comprar uma porção da especialidade de Shi.

"Quando éramos crianças, todos em Nanjing compravam um rolinho de arroz cozido no vapor com youtiao bem na porta de casa", recorda.

"Às quatro da manhã, uma mordida no Fangpo é como uma salvação", compartilhou. "É tão bom que chega a emocionar. Com certeza voltarei para comprar mais".

À medida que a cidade evolui, tradições como essa preservam a continuidade.

Para Shi, a loja não é apenas um meio de subsistência, mas um reflexo do calor da cidade — moldado pelos vizinhos, clientes e pelo ritmo da vida cotidiana.

"Tenho tido sorte", disse ela. "Conheci pessoas boas ao longo do caminho. Meu único objetivo agora é manter a alta qualidade e os preços justos".

Para os visitantes, seu encanto reside na autenticidade: comida simples, feita com carinho, sem pretensão.

Com a chegada do início do verão, o vapor ainda sobe da pequena loja antes do amanhecer, e a fila se forma como sempre. Em Nanjing, o wufan não é considerado uma tradição — é simplesmente algo que se repete, manhã após manhã.

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