Jin Weiping
Em 25 de junho, o Ministério da Fazenda do Brasil apresentou à Associação Nacional de Investidores Institucionais do Mercado Interbancário da China uma carta de solicitação para a emissão de panda bonds. Com isso, o Brasil se tornará o primeiro país latino-americano a registrar a emissão de títulos soberanos em renminbi. A emissão desses títulos pelo governo brasileiro não se deve apenas à busca por menores custos de financiamento e maior conveniência nas liquidações comerciais, mas também representa um importante indicador da reconfiguração do sistema financeiro global e da crescente valorização dos ativos denominados em renminbi.
Na realidade, já em abril deste ano surgiram notícias de que investidores estrangeiros estavam comprando em grande escala “títulos panda” e “títulos dim sum”, considerando os títulos chineses como um porto seguro para o capital global. No complexo ambiente cambial internacional do último ano, a taxa de câmbio do renminbi em relação ao dólar americano manteve-se basicamente estável, com tendência de valorização. Essa solidez se deve ao superávit comercial da China, que atingiu sucessivos recordes, e também ao fato de a indústria manufatureira chinesa ter resistido à “guerra tarifária” iniciada pelos Estados Unidos em 2025. Além disso, após o início dos conflitos no Oriente Médio neste ano, a economia chinesa mostrou resiliência diante do aumento dos preços da energia tradicional provocado pelo bloqueio do Estreito de Ormuz, oferecendo ao mundo o maior grau de previsibilidade para as cadeias globais de produção e abastecimento. Como resultado, a utilização do renminbi nas liquidações comerciais tornou-se uma escolha cada vez mais frequente para diversos países.
Além disso, no campo financeiro, os títulos do Tesouro americano e o ouro são, há muito tempo, importantes ativos tradicionais de reserva para os bancos centrais de vários países. Entretanto, nos últimos anos, o aumento contínuo da dívida pública americana gerou preocupações sobre um possível “calote brando” dos títulos do Tesouro dos EUA. Ao mesmo tempo, desde o início deste ano, a volatilidade dos rendimentos dos títulos americanos aumentou, seus preços continuaram caindo, e o ouro passou por fortes oscilações de alta e baixa. Tudo isso levou bancos centrais de diversos países a direcionarem sua atenção para ativos de crédito chineses considerados mais seguros e estáveis.
Mesmo que os rendimentos dos títulos americanos sejam superiores aos dos títulos chineses, os títulos denominados em renminbi oferecem aos investidores internacionais vantagens como retornos mais estáveis, alta qualidade de crédito e baixa correlação com as oscilações dos principais mercados internacionais. Assim, proporcionam um canal padronizado e em larga escala para investimentos no crédito chinês.
Em junho deste ano, o presidente do Banco Popular da China, Pan Gongsheng, anunciou durante o Fórum Lujiazui a criação de um mecanismo de recompra destinado a instituições semelhantes a bancos centrais estrangeiros. Por meio desse instrumento, bancos centrais estrangeiros, autoridades monetárias, organizações financeiras internacionais e fundos soberanos poderão obter liquidez em renminbi junto ao Banco Popular da China utilizando títulos chineses de alta qualidade, como títulos do governo chinês, como garantia. A medida facilitará a gestão da liquidez em renminbi dessas instituições e a alocação de ativos denominados na moeda chinesa. Esse mecanismo certamente incentivará investidores internacionais a ampliar suas posições em títulos soberanos chineses.
No contexto das grandes transformações globais, a profunda relação econômica e comercial entre China e Brasil estabelece uma base sólida para a consolidação dos títulos panda. Por um lado, a economia chinesa continua expandindo sua capacidade industrial por meio da iniciativa Cinturão e Rota, levando adiante sua estratégia de desenvolvimento manufatureiro.
Em 2025, o comércio bilateral entre China e Brasil alcançou 188 bilhões de dólares. Desse total, as exportações brasileiras para a China ultrapassaram 100 bilhões de dólares, enquanto as importações brasileiras provenientes da China chegaram a 71 bilhões de dólares. A China exporta principalmente para o Brasil maquinaria, computadores e equipamentos de tecnologia da informação e comunicação, autopeças, materiais elétricos e outros produtos industriais e bens intermediários. Do Brasil, a China importa principalmente minério de ferro, soja, petróleo bruto, celulose, óleo de soja, carne bovina e outras commodities.
Essa relação comercial cada vez mais estreita demonstra de forma concreta a perda gradual de influência do dólar sobre os mercados emergentes e fornece uma base comercial sólida para a cooperação financeira em moedas nacionais entre os dois países e para a implementação da emissão de panda bonds.
Por outro lado, o processo global de “desdolarização” continua acelerando. Um número crescente de países em desenvolvimento está reduzindo sua dependência do sistema baseado no dólar e nos títulos do Tesouro americano. O avanço do Brasil na emissão de títulos soberanos denominados em renminbi é justamente um exemplo representativo dessa tendência.
Essas mudanças indicam que a China entrou em um momento crucial para reverter sua posição passiva no ciclo econômico-financeiro global. A implementação e expansão dos panda bonds brasileiros representam uma prática importante da participação ativa da China na reconstrução da ordem financeira internacional. O potencial de desenvolvimento futuro é amplo, e seu efeito demonstrativo poderá ser significativo.
(A autora é professora associada do Instituto de Economia da Escola de Ciências Sociais da Universidade Tsinghua)
