José Medeiros da Silva
A revogação do visto da embaixadora brasileira em Washington, Maria Luiza Ribeiro Viotti, pelo governo dos Estados Unidos, não deve ser lida apenas como uma retaliação diplomática pontual. O episódio se insere em um processo mais amplo de tensionamento nas relações entre os dois países e expressa, de forma concreta, a nova orientação geopolítica norte-americana para a América Latina.
Formalizada no chamado "Corolário Trump à Doutrina Monroe", essa orientação reafirma a pretensão de restabelecer a preeminência dos Estados Unidos no Hemisfério Ocidental e de condicionar as escolhas políticas, econômicas e diplomáticas dos países da região às prioridades estratégicas de Washington.
Vale salientar que essa escalada entre os governos Lula e Trump não é recente. Já em julho de 2025, o secretário de Estado Marco Rubio revogara os vistos do ministro Alexandre de Moraes, de outros integrantes do STF e do procurador-geral da República, Paulo Gonet, sob a alegação de que a Corte conduzia uma perseguição política contra o ex-presidente Jair Bolsonaro.
Mais recentemente, o impasse em torno da indicação de Daniel Perez para a embaixada dos Estados Unidos em Brasília aprofundou o atrito. Embora a Convenção de Viena não estabeleça prazo para a concessão do agrément — consentimento prévio do país receptor à indicação de um chefe de missão diplomática —, o governo Trump passou a tratar a espera brasileira como resistência deliberada.
A tensão se agravou em 24 de julho, quando o Itamaraty negou vistos a dois enviados de Rubio, sob a justificativa de que a missão desses enviados poderia interferir no processo eleitoral brasileiro.
Washington respondeu revogando, em 4 de agosto, o visto de Viotti, medida apresentada como recíproca, mas interpretada por Brasília como mais uma forma de pressão em ano eleitoral.
Essa sucessão de episódios, no entanto, não se explica apenas pelas divergências entre Lula e Trump ou pelas circunstâncias eleitorais brasileiras. Ela precisa ser compreendida no contexto de um reposicionamento geopolítico mais profundo dos Estados Unidos em relação à América Latina.
Ampliando o olhar para a região, observa-se também uma deterioração pouco comum nas relações entre Brasil e Argentina. A participação do presidente Javier Milei no lançamento da candidatura de Flávio Bolsonaro, em São Paulo, acompanhada de ataques a Lula e a integrantes do Supremo Tribunal Federal, levou o Brasil a retirar seu embaixador de Buenos Aires e a manter sua representação diplomática sob a chefia de um encarregado de negócios.
Não deixa de ser significativo que a Argentina e os Estados Unidos figurem entre os primeiros Estados a reconhecer a independência do Brasil. Relações construídas ao longo de dois séculos deveriam estar acima dos alinhamentos ideológicos e dos interesses circunstanciais de cada governo.
Diante dessa nova realidade internacional, visão estratégica e maturidade política tornam-se fundamentais — especialmente para o Brasil, cuja posição assimétrica no sistema internacional e capacidade de defesa limitada exigem uma diplomacia orientada pela autonomia, pela prudência e pelos interesses de longo prazo.
Somente com uma visão ampliada dos desafios geopolíticos do nosso tempo e com efetiva capacidade de ação, o Brasil poderá contribuir para a própria prosperidade, para o desenvolvimento da região e para a construção de um mundo mais colaborativo e menos bélico. Poderá, sobretudo, rechaçar qualquer tentativa de reduzi-lo à condição de quintal de projetos de poder alheios e exercer plenamente sua vocação soberana.
(O autor é professor e diretor do Centro de Estudos de Brasil da Universidade de Estudos Internacionais de Zhejiang.)