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Quando o fado encontra a China: Cristina Branco e a música que fala sem fronteiras

Fonte: Diário do Povo Online    14.08.2026 14h12

Por Zhang Rong

Em setembro, Cristina Branco regressará a Beijing, desta vez não como turista, mas como cantora. A 6 de setembro, a fadista portuguesa sobe ao palco do Forbidden City Concert Hall, no âmbito do Festival de Fado 2026, para apresentar ao público chinês uma música que, nas suas palavras, fala de Portugal, mas também de sentimentos que não conhecem fronteiras.

Para Branco, a cidade não é completamente desconhecida. Já esteve em Beijing de férias, depois de atravessar a Rússia e a Mongólia no Transiberiano. Viu a Grande Muralha e passou apenas dois dias na capital chinesa. Agora, regressa com outra perspetiva e com outra missão.

"É a primeira vez que eu vou cantar à China, mas não é a primeira vez que eu estou em Beijing. Já estive aí de férias e obviamente amei, adorei, gostei muito. E agora vou voltar enquanto cantora, o que transforma toda a minha experiência, evidentemente".

A diferença não está apenas no papel que agora desempenha. Está também na curiosidade com que olha para o encontro entre a sua música e um público culturalmente distante do seu.

"Ou seja, quando alguém como um português vai à China cantar, é importante que passe essa mensagem de união e de partilha".

Ela chega à China depois de quase três décadas de carreira, 19 álbuns editados e concertos em vários países. A sua trajetória, porém, começou longe das casas de fado de Lisboa e sem um plano definido para se tornar fadista.

Uma voz que encontrou o fado aos 18 anos

Nascida em Almeirim, no Ribatejo, Cristina Branco cresceu longe do centro tradicional do fado lisboeta. Na juventude, as suas principais referências eram o jazz, o blues, a música francesa e a brasileira. O fado entrou na sua vida aos 18 anos, quando o avô lhe ofereceu um disco de Amália Rodrigues.

"Eu apaixonei-me profundamente pela voz da Amália".

Até então, Branco associava o fado ao antigo regime e à ditadura. A descoberta de Amália, porém, mostrou-lhe que o género podia ser muito mais aberto e diversificado. "E aí eu percebi que o fado era muito mais do que apenas uma música hermética".

Depois de estudar Comunicação Social e de considerar uma carreira no jornalismo, acabou por escolher a música. Começou a cantar profissionalmente depois dos 20 anos e construiu uma carreira internacional com 19 álbuns editados e concertos em vários países.

O seu percurso ganhou projeção nos Países Baixos com Cristina Branco in Holland, lançado em 1997. Murmúrios (1998) e Post-Scriptum (2000) valeram-lhe dois Prix Choc da revista francesa Le Monde de la Musique. Mais tarde, a trilogia Menina (2016), Branco (2018) e Eva (2020) aprofundou a sua aposta na colaboração com músicos e autores de diferentes gerações. Menina foi distinguido pela Sociedade Portuguesa de Autores como Melhor Disco do Ano.

Três décadas depois de começar a cantar, Branco mantém a mesma convicção: “Cantar é apenas uma outra forma de comunicar. (...) Cantar é uma forma de comunicar. Eu descobri, felizmente, que a minha forma de comunicar era através do canto".

“O fado não é uma música hermética”

É também através dessa ideia de comunicação que Branco entende a evolução do fado. Para ela, o género não pode ser separado da sociedade portuguesa, que o criou e continua a alimentar. “Não é uma música que esteja dentro de uma caixa a ganhar pó. O fado é uma música em evolução".

A cantora acredita que preservar a tradição não significa impedir a inovação. Novos poemas e textos contemporâneos podem encontrar espaço dentro de estruturas tradicionais, permitindo que o fado acompanhe as transformações da sociedade portuguesa.

Essa capacidade de transmitir experiências universais está também presente na palavra "saudade". Embora seja frequentemente associada a Portugal, Branco acredita que o sentimento é partilhado por pessoas de todo o mundo.

"Eu não acho que seja exclusivamente português, eu acho que o mundo inteiro sente saudade".

Para a cantora, "saudade" reúne diferentes emoções — pertença, ausência, distância, amor e memória — numa única palavra. É precisamente essa dimensão universal que permite ao fado ultrapassar fronteiras.

Uma voz portuguesa diante da China

É esse encontro entre o particular e o universal que Branco espera viver em setembro, em Beijing. Além de apresentar a língua e a cultura portuguesas, quer descobrir como a sua música será recebida pelo público chinês.

"Temos uma mensagem para transmitir: mostrar a nossa língua, partilhar um pouco da nossa cultura e falar também daquilo que é essencial na música — o amor, a diversidade e a multiculturalidade."

A cantora diz estar “muito curiosa” para conhecer melhor a cultura chinesa e encontrar pontos de contacto entre os dois países. Para ela, é uma honra ser “o veículo” dessa aproximação.

"É uma honra enorme sentir que o público chinês está interessado em descobrir mais do meu país, em descobrir mais da minha cultura".

A relação, contudo, poderá ser de mão dupla. Branco revela que já recebeu pedidos para adaptar músicas chinesas e recriá-las em português, embora ainda não saiba se haverá uma colaboração concreta com artistas chineses durante a sua passagem por Beijing.

A possibilidade resume, de certa forma, a própria trajetória da cantora: aos 18 anos, uma voz que veio de outro tempo abriu-lhe as portas do fado. Três décadas depois, é ela quem leva essa tradição a novos lugares, procurando não apenas preservá-la, mas também transformá-la e fazê-la dialogar com outras culturas.

Em setembro, diante do público chinês, a sua definição de cantar como uma forma de comunicar poderá ganhar um novo significado: uma língua pode ser diferente e uma história pode ser distante, mas a música pode sempre começar a conversa.

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