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China testa "comunidades silenciosas" para conter ruído urbano e conflitos

Fonte: Diário do Povo Online    17.08.2026 13h34

Quando Shi Jikun, de 72 anos, abria as janelas de sua casa em Yuxi, na província de Yunnan (sudoeste da China), ele costumava ouvir o som repetitivo de bolas batendo e apitos vindos de um ginásio esportivo próximo ao seu condomínio.

"Durante o dia, eu não ousava abrir as janelas", disse Shi, relembrando os anos em que o barulho perturbava sua rotina diária.

Desde então, o ginásio passou por duas etapas de isolamento acústico. Materiais de absorção sonora foram instalados nas paredes, e janelas com vidro duplo e isolamento acústico foram colocadas na fachada voltada para a área residencial.

O ruído diminuiu. "O bairro está silencioso agora, tornando a vida cotidiana muito mais confortável", observou Shi.

A experiência de Shi faz parte de um movimento mais amplo em curso na China para enfrentar um dos custos menos óbvios da urbanização: a crescente quantidade de ruído concentrada em bairros cada vez mais densos.

À medida que as cidades se expandem, residências, estradas, comércios, canteiros de obras e espaços de lazer acabam muitas vezes aglomerados. A China vem testando uma resposta a esse desafio em nível de bairro por meio do desenvolvimento de "comunidades silenciosas", combinando melhorias físicas com gestão e mediação locais.

Essa iniciativa foi lançada como um projeto-piloto nacional em maio de 2023. Até o final de 2025, um total de 3.272 comunidades silenciosas haviam sido criadas em todo o país, beneficiando mais de 2,4 milhões de domicílios, segundo o Ministério da Ecologia e Meio Ambiente.

Essa abordagem agora também conta com uma base jurídica mais sólida. No sábado (15), entrou em vigor o Código de Ecologia e Meio Ambiente da China, que inclui uma seção dedicada à prevenção e ao controle da poluição sonora.

A dimensão do problema reflete-se nas reclamações sobre ruído. Em 2025, cidades de nível de prefeitura e superior receberam cerca de 6,83 milhões de queixas relacionadas a ruídos, sendo que 73,2% delas referiam-se a ruídos decorrentes da vida social.

Barulhos provocados por vizinhos, falhas em equipamentos e perturbações causadas pela dança em praças, uma atividade física em grupo popular na China, frequentemente praticada por moradores de meia-idade e idosos em espaços públicos, estavam entre as queixas mais comuns.

O programa de comunidades silenciosas da China foi criado para solucionar esses problemas antes que se transformem em conflitos recorrentes. "Comunidades silenciosas não significam a ausência total de som", afirmou Lu Lu, vice-chefe da divisão de gestão de ruído do Ministério da Ecologia e Meio Ambiente.

O objetivo, segundo Lu, é criar um ambiente de convivência confortável e harmonioso, equilibrando as atividades cotidianas com a necessidade de silêncio dos moradores.

As soluções variam de acordo com o local. Em Shenzhen, no sul da China, alguns condomínios recém-construídos estão incorporando o controle de ruído já nas fases de planejamento e projeto. As medidas incluem pavimentação de baixo ruído, barreiras vegetais, separação entre vias de pedestres e veículos e equipamentos de monitoramento automático de ruído.

Comunidades mais antigas estão aproveitando projetos de reforma para lidar com questões relacionadas ao ruído. No distrito de Xiaoshan, em Hangzhou, no leste da China, o condomínio Huiyu Garden substituiu elevadores antigos e reparou grelhas de drenagem e outras instalações públicas como parte de seu programa de comunidade silenciosa.

No entanto, apenas melhorias físicas não bastam para resolver conflitos entre vizinhos.

No condomínio Fenglin Shunhe, em Weihai, na província de Shandong, no leste da China, moradores, administradores prediais, autoridades locais e grupos de dança de praça concordaram em encerrar as atividades às 20h30. As luzes principais da praça se apagam nesse horário, sinalizando que é hora de os dançarinos irem embora.

O segredo é responder rapidamente às reclamações e oferecer aos moradores e grupos de atividades um meio de negociar soluções, disse Jiang Chunyan, chefe do comitê de bairro.

Em outra comunidade de Shenzhen, os administradores foram além, tratando o ruído de reformas como um processo a ser gerido de forma proativa, em vez de um problema a ser resolvido apenas após o surgimento de reclamações.

As obras de reforma são divididas em nove etapas e mapeadas num gráfico visual de gestão de ruído. Os administradores utilizam esse gráfico para realizar inspeções direcionadas à medida que o trabalho avança. Além disso, exige-se que as empreiteiras trabalhem apenas em horários determinados e em condições de isolamento total.

O programa ainda enfrenta lacunas em termos de abrangência regional e manutenção a longo prazo. As comunidades silenciosas concentram-se em poucas cidades, enquanto bairros mais antigos e regiões do centro e oeste da China contam com menos projetos. Algumas comunidades também enfrentam dificuldades para manter as medidas de controle de ruído após a conclusão das melhorias iniciais.

O Ministério da Ecologia e Meio Ambiente planeja incorporar o desenvolvimento de comunidades silenciosas às ações de prevenção e controle da poluição sonora na China para o período de 2026 a 2030. Solicitou inspeções regulares, monitoramento dinâmico e visitas de acompanhamento para garantir que as medidas permaneçam eficazes.

Zheng Shanshan, uma autoridade responsável por questões ecológicas no subdistrito de Xiangfu, em Hangzhou, afirmou que a próxima etapa deve expandir o controle de ruído, indo além de comunidades individuais para abranger áreas maiores, por meio de ferramentas como mapas do ambiente sonoro.

"Comunidades silenciosas são apenas um ponto de partida", disse Zheng. "Esperamos criar mais espaços silenciosos por toda a cidade."

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