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Jornalista brasileiro vê desenvolvimento centrado no povo por meio de três viagens a Guizhou, na China

Fonte: Xinhua    17.08.2026 08h47

Dirigindo pelo sudoeste da China, na Província de Guizhou, Mauro Ramos Pintos, correspondente de 42 anos do portal brasileiro Brasil de Fato, tentava contar os túneis ao longo do caminho. Logo, porém, perdeu a conta -- tamanha era a quantidade.

Para Mauro, as pontes e os túneis eram mais do que simples projetos de engenharia. Depois de três visitas a Guizhou, ele adquiriu uma compreensão profunda sobre uma questão: como o país tirou tantas pessoas da pobreza, e o que viria depois?

UMA PERGUNTA QUE O LEVOU À CHINA

O interesse de Mauro pelo combate à pobreza na China remonta a 2021, quando tomou conhecimento do sucesso do país na eliminação da pobreza absoluta, que tirou quase 100 milhões de residentes rurais dessa condição.

"Escrevi um boletim informativo sobre o assunto e contei isso à minha editora, e ela me recomentou a visitar a China. Essa foi uma das razões pelas quais acabei vindo para cá", disse ele.

"Acho que não precisamos copiar o modelo da China, mas com certeza podemos aprender com ela", disse ele.

Em 2023, pouco depois de começar a trabalhar na China, Mauro fez sua a primeira viagem a Guizhou. Seu destino era o distrito de Rongjiang, que saiu da pobreza em 2020 e onde a Superliga da Aldeia, ou "Cun Chao", havia se tornado uma sensação em todo o país.

Em Rongjiang, o que mais lhe interessou foi a participação ativa dos moradores locais no evento. "O fato de ser uma iniciativa autoorganizada -- há apoio do governo e das empresas, mas a população local está disposta a se organizar para melhorar sua própria vida -- acho que isso foi algo muito positivo", manifestou ele.

Mauro filmou a cena, e o vídeo recebeu posteriormente reações calorosas de seu público brasileiro. "Muitas pessoas se identificaram com o filme, conforme comentários recebidos", disse ele. "Elas disseram: 'Isso é tão legal porque mostra pessoas de verdade'."

REVITALIZAÇÃO RURAL SEM DEIXAR NINGUÉM PARA TRÁS

Mauro voltou a Rongjiang em 2024. A segunda visita o levou a olhar além da popularidade do torneio de futebol e a questionar como esforços conjuntos de diferentes fontes puderam trabalhar juntos para o desenvolvimento rural.

"Uma coisa que chamou minha atenção foi o papel das empresas nesse processo de revitalização rural", manifestou ele, citando como exemplo empresas de internet prestando serviços em áreas rurais e organizando oficinas para ensinar os moradores a fazer vídeos e promover os locais na internet.

"É uma grande estratégia que envolve o governo local, a população e as empresas -- o país inteiro remando em direção ao mesmo objetivo", observou ele.

A sua terceira viagem a Guizhou, no início de agosto deste ano, ampliou ainda mais essa compreensão. Em uma base de produção de matcha no distrito de Jiangkou, Mauro viu as folhas de chá sendo processadas localmente, em vez de serem vendidas simplesmente como produtos agrícolas brutos. Segundo ele, o setor cria mais empregos e maiores benefícios para as comunidades locais.

"Este é um exemplo muito interessante de revitalização rural, pois se trata de uma abordagem holística baseada na ideia de não deixar ninguém para trás", apontou Mauro.

"Não é preciso necessariamente ir para as grandes cidades para ter uma boa qualidade de vida. É possível ficar na própria aldeia, desenvolver-se, fazer o que sempre se fez", disse ele.

Para Mauro, essa é uma das razões pelas quais o desenvolvimento rural da China merece atenção muito além do próprio país. "Acho que a revitalização rural é um processo que não é interessante apenas para os países do Sul Global, mas também para que o mundo inteiro preste cada vez mais atenção", disse ele.

UMA ABORDAGEM CENTRADA NAS PESSOAS

O terreno montanhoso da Guizhou sempre representou desafios para o desenvolvimento. Viajando pela província, Mauro passou por ponte após ponte e túnel após túnel, que ligam comunidades através das montanhas.

Para ele, essa infraestrutura é essencial para compreender a revitalização rural, já que as indústrias locais e o turismo não podem se desenvolver de forma isolada.

Guizhou tem agora mais de 32 mil pontes concluídas ou em construção -- um aumento de dez vezes desde a década de 1980. A província abriga quase metade das 100 pontes mais altas do mundo, incluindo as três primeiras colocadas.

Segundo ele, os projetos de infraestrutura são essenciais para conectar pessoas, melhorar a vida dos moradores locais. "Para garantir que as iniciativas de revitalização rural funcionem, é preciso, antes de tudo, contar com uma boa infraestrutura de transporte, especialmente em uma província como Guizhou", disse ele.

Um exemplo que o impressionou particularmente foi a Ponte de Pingtang. "A ponte não foi construída como um investimento para gerar mais lucro ou transportar cargas pesadas, mas, na verdade, para conectar as pessoas e melhorar a vida dos moradores locais", disse ele.

"Este é um exemplo da abordagem centrada nas pessoas -- o país fazendo investimentos para melhorar a vida das pessoas, agora e no futuro", acrescentou.

"Nossa missão aqui na China é tentar comunicar o que é a sociedade chinesa, quais são as políticas, tentar entender a China e explicar a China através das vozes das pessoas -- deixar que o povo chinês mostre a China e explique a China", disse ele.

Para ele, isso significa ouvir não apenas acadêmicos e funcionários, mas também agricultores, trabalhadores e outras pessoas comuns.

Em Beijing, Mauro frequentemente se depara com conceitos como revitalização rural e desenvolvimento de alta qualidade em documentos políticos e reuniões oficiais. Quando viajava, segundo ele, esses conceitos se tornavam tangíveis. "Ao conversar com as pessoas e fazer perguntas específicas, conseguimos entender ainda mais o sistema de governança da China", admitiu.

Após quase quatro anos no país e três viagens a Guizhou, Mauro disse que o processo de compreensão da China está longe de terminar. "Devo continuar aprendendo e nunca terminar de aprender, especialmente na China, porque é tão grande", disse ele. "É um processo contínuo."

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