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Transpondo o abismo digital, construindo um futuro inclusivo — O significado da adesão do Brasil à WAICO

Fonte: Diário do Povo Online    17.08.2026 15h01

Por Yan Qiaorong* e Júlio Rodriguez**

A inteligência artificial está reconfigurando profundamente a estrutura da produção global e o sistema de governança internacional. A capacidade computacional, os dados e os algoritmos tornaram-se fatores estratégicos para aferir a competitividade de uma nação.

Como maior economia da América Latina e um dos países mais representativos do Sul Global, o Brasil aderiu,como membro fundador,à Organização Mundial de Cooperação em Inteligência Artificial (WAICO, na sigla em inglês),uma iniciativa proposta pela China com sede em Shanghai.

A decisão demonstra a postura ativa dos países em desenvolvimento na governança global da IA e estabelece um marco para as nações do Sul Global que buscam caminhos autônomos, equitativos e mutuamente benéficos na era digital.

Atualmente, o desenvolvimento da IA combina oportunidades e riscos, enquanto o fosso digital entre Norte e Sul continua a se alargar. Um pequeno grupo de países desenvolvidos consolidou posições dominantes no desenvolvimento de grandes modelos de linguagem, na fabricação de semicondutores e na definição de regras internacionais. Em contrapartida, os países do Sul Global enfrentam escassez de investimentos, infraestrutura computacional frágil, carência de talentos especializados e atraso regulatório.

Nesse contexto, a WAICO, baseada nos princípios de consulta extensiva, contribuição conjunta e benefício compartilhado, busca fortalecer as capacidades dos países em desenvolvimento em IA, remover barreiras tecnológicas e aperfeiçoar regras de governança inclusivas. A organização responde às demandas do Sul Global por direito ao desenvolvimento digital, acesso equitativo à tecnologia e participação efetiva na definição de normas.

O Brasil possui uma política externa multilateral e autônoma, valorizando espaços como o BRICS e o G20. Diante da reconfiguração da ordem internacional impulsionada pela IA, cresce no governo e na academia brasileiros o entendimento de que a dependência excessiva de um único sistema tecnológico pode comprometer a autonomia do país e sua influência na governança global da IA. A participação na WAICO torna-se, assim, um caminho relevante para ampliar seu espaço de desenvolvimento.

O Brasil também possui vantagens em recursos naturais e infraestrutura para desenvolver uma IA verde e se tornar um polo regional de computação sustentável. No entanto, enfrenta limitações como capacidade insuficiente da rede elétrica, longos prazos de licenciamento ambiental, instabilidade fiscal, escassez de talentos de alto nível e fragilidade da pesquisa básica.

Para enfrentar esses desafios, o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) lançou o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA), com investimentos previstos de cerca de US$ 4,07 bilhões entre 2024 e 2028, incluindo uma nuvem soberana, um modelo de linguagem em português e iniciativas de governança digital.

Nesse contexto, a WAICO pode oferecer suporte fundamental ao Brasil. Por meio do compartilhamento aberto, o país poderá acessar soluções tecnológicas adaptadas a seus contextos locais; mediante cooperação em capacidade computacional, poderá aproveitar sua vantagem energética limpa para construir um polo regional de computação verde; e, pelo intercâmbio de experiências regulatórias, poderá aperfeiçoar seus sistemas de proteção de dados e fiscalização algorítmica. Essas iniciativas também ampliarão a cooperação científica entre universidades, institutos e empresas dos países membros.

A participação brasileira terá ainda efeitos regionais. Segundo o Índice Latino-Americano de Inteligência Artificial 2023, a cooperação intra-regional em IA na América Latina representa apenas 7,7% do total, evidenciando o baixo nível de integração digital da região. Como país-chave, o Brasil poderá, no âmbito da WAICO, promover tecnologias abertas, capacitação técnico-científica, colaboração computacional e padrões de governança, contribuindo para construir uma rede sul-americana de cooperação em IA. Aplicações em agricultura inteligente, saúde digital e governo eletrônico poderão impulsionar a modernização regional e ampliar a voz da América Latina na governança global da IA.

O avanço da era digital exige não apenas inovação tecnológica, mas também salvaguardas éticas e sociais. Questões como emprego, governança algorítmica e segurança de dados tornaram-se centrais no debate público brasileiro. O Plano de Ação para o Desenvolvimento da Cooperação em IA estabelece oito eixos, incluindo dados de qualidade, acesso equitativo à computação, ecossistema aberto, formação de talentos, construção conjunta de regras e padrões, governança de segurança e IA para o bem comum.

A entrada do Brasil na WAICO representa, portanto, um novo ponto de partida para a América Latina na era digital e demonstra como o Sul Global pode, por meio do multilateralismo efetivo, enfrentar os desafios do desenvolvimento tecnológico. Por meio de uma plataforma aberta, inclusiva e mutuamente benéfica, os países poderão derrubar barreiras tecnológicas, construir consensos de governança e compartilhar os frutos do desenvolvimento, fazendo da inteligência artificial um bem para toda a humanidade.

*Yan Qiaorong é professora associada da Faculdade de Comunicação Internacional e diretora do Centro de Estudos em Comunicação China-Brasil da Academia de Estudos de Comunicação Internacional e Regional da Universidade de Comunicação da China

**Júlio Rodriguez é diretor adjunto de relações internacionais da UFSM e diretor de Cooperação Internacional da Associação Brasileira de Ciência Política.

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