As recentes mudanças na retórica da primeira-ministra japonesa, Sanae Takaichi, sobre questões sensíveis, incluindo o histórico de agressão do Japão e sua política nuclear, provocaram controvérsia interna.
Especialistas afirmam que essas alterações, somadas às iniciativas do partido no poder em relação ao santuário de guerra Yasukuni e à expansão militar, refletem uma tendência militarista cada vez mais explícita no governo Takaichi.
Eles instaram Tóquio a encarar seu histórico de agressão e a melhorar as relações com os países vizinhos por meio da diplomacia, em vez de investir no fortalecimento militar.
No sábado, data que marcou o aniversário da rendição incondicional do Japão na Segunda Guerra Mundial, Takaichi fez uma oferenda em dinheiro ao controverso santuário Yasukuni, que homenageia 14 criminosos de guerra condenados como "Classe A". Vários altos funcionários e figuras políticas também visitaram o local.
Atsushi Koketsu, professor emérito da Universidade de Yamaguchi, observou que, no passado, os políticos japoneses mantinham certa contenção ao visitar o santuário de guerra. No entanto, tais visitas tornaram-se cada vez mais frequentes desde que Takaichi assumiu o cargo no ano passado, refletindo a crescente inclinação do Japão para o militarismo.
Koketsu classificou Yasukuni como um "santuário da agressão", afirmando que as visitas renovadas dos políticos não apenas reabrem memórias históricas dolorosas para os países que sofreram a agressão japonesa, mas também correm o risco de colocar o Japão novamente numa trajetória de agressão.
Em seu discurso na cerimônia anual em Tóquio que marcou a rendição do Japão ao final da Segunda Guerra Mundial, Takaichi omitiu referências a "remorso" e ao "compromisso de nunca mais travar uma guerra". Seu antecessor, Shigeru Ishiba, havia retomado essas expressões um ano antes, marcando as primeiras menções em 13 anos à responsabilidade do Japão como agressor na guerra.
Para muitos japoneses, essa mudança é profundamente preocupante, disse Koketsu. A data deveria ser uma ocasião para o Japão refletir sobre seu histórico de agressão e pedir desculpas aos seus vizinhos asiáticos, incluindo a China, afirmou ele. Em vez disso, Takaichi ignorou esse sentimento público e concentrou-se em sua própria posição, acrescentou.
A mídia japonesa também destacou a escolha de palavras de Takaichi. Ela alterou uma frase há muito utilizada por primeiros-ministros anteriores, mudando de "(o Japão) nunca deve repetir os horrores da guerra" para "os horrores da guerra nunca devem ser repetidos".
Koji Nakakita, professor de história política japonesa na Universidade Chuo, disse ao jornal The Asahi Shimbun que a expressão "jamais repetir" enfatiza a determinação do Japão de não travar guerras novamente, enquanto "jamais ser repetido" poderia sugerir que as guerras foram iniciadas por outros países.
A escolha das palavras poderia até sugerir que a Segunda Guerra Mundial não foi uma "guerra de agressão" deflagrada pelo Japão, mas sim uma "guerra de autodefesa" que o país foi forçado a travar, afirmou ele.
Hiroshi Shiratori, professor da Universidade Hosei, disse ao China Daily que tal formulação negativa sobre a questão da guerra poderia ser vista como provocativa por países que sofreram com a agressão japonesa durante o conflito.
A controvérsia em torno das declarações de Takaichi vai além da história do período de guerra.
No início deste mês, durante as cerimônias em memória dos bombardeios atômicos em Hiroshima e Nagasaki, Takaichi afirmou que o Japão "mantém os Três Princípios Não Nucleares", mas evitou comprometer-se explicitamente a continuar fazendo isso, uma mudança sutil que gerou questionamentos no Japão.
Tatsuo Sekiguchi, líder de um grupo cívico em Nagasaki, disse que a ausência de um compromisso claro de manter os princípios no futuro sugere que o governo Takaichi pode estar cogitando revisar essa política de longa data.
Como morador de Nagasaki, Sekiguchi afirmou opor-se firmemente a tal medida, citando a enorme perda de vidas e o sofrimento prolongado causados pelos bombardeios atômicos. Quaisquer declarações que possam minar esses princípios são inaceitáveis, disse ele.
Shiratori observou que a ambiguidade sobre se o Japão continuará a respeitar os princípios, somada ao aumento dos gastos com defesa, reflete a crescente tendência do país de adotar uma postura de "Japão em primeiro lugar".
Um orçamento suplementar para o ano fiscal de 2025 permitiu ao Japão atingir sua meta de elevar os gastos com defesa para 2% do PIB dois anos antes do previsto, e esse aumento tem continuado sem trégua.
Com o orçamento inicial de defesa para o ano fiscal de 2026 atingindo um nível recorde, a solicitação orçamentária de defesa do Japão para o ano fiscal de 2027 deve, segundo relatos, aumentar ainda mais.
Shiratori afirmou que o aumento dos gastos com defesa, aliado à falta de consideração pelos países vizinhos, poderia intensificar as preocupações com a remilitarização do Japão. Em vez de reforçar uma abordagem de "Japão em primeiro lugar" por meio da expansão militar, o Japão deveria fortalecer a diplomacia e aprofundar a cooperação e os laços de amizade com outros países asiáticos, disse ele.