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Uma conversa com Liu Cixin: do Problema dos Três Corpos ao futuro da humanidade

Fonte: Diário do Povo Online    23.10.2026 15h10

Por Chen Yuanyuan, Diário do Povo

Liu Cixin (Foto: aplicativo Diário do Povo)

Em 2006, o romance de ficção científica chinês de Liu Cixin, "O Problema dos Três Corpos", começou a ser publicado em formato de folhetim na revista Science Fiction World. Duas décadas depois, o romance não só deixou sua marca no cenário mundial, como também ofereceu uma perspectiva para examinar os desenvolvimentos do mundo real. A inteligência artificial (IA), os voos espaciais comerciais e a exploração interestelar estão avançando em um ritmo notável, à medida que a humanidade volta seus olhos para os confins do espaço. Recentemente, o Diário do Povo conversou com Liu sobre ficção científica e o futuro da civilização humana.

P: O que você estava pensando quando escreveu O Problema dos Três Corpos pela primeira vez? Como suas perspectivas evoluíram desde então?

Liu Cixin: Vinte anos atrás, enquanto digitava "O Problema dos Três Corpos" num computador no meu escritório no meio das montanhas, jamais imaginei que encontraria um público tão grande. Antes de mais nada, "O Problema dos Três Corpos" é uma obra de ficção popular, destinada sobretudo a contar uma história que deixasse os leitores atônitos.

Se eu pudesse voltar àquele momento, talvez hesitasse em incluir alguns dos temas mais sombrios presentes na história. Originalmente, eram recursos narrativos criados para envolver os leitores, mas desde então foram amplamente interpretados como reflexos do que mais tarde denominei "sociologia cósmica". Com um público tão vasto hoje em dia, às vezes sinto que acendi uma chama que agora queima fora do meu controle.

Minha visão de mundo fundamental permaneceu inalterada nas últimas duas décadas. No entanto, escrever tornou-se mais difícil. Gerar novos conceitos para ficção científica é um desafio cada vez maior. Por um lado, a IA está avançando rapidamente. Não estou preocupado em ser substituído agora, mas e daqui a 10 anos? Se a IA puder produzir um manuscrito superior em cinco minutos, que levaria cinco meses para um escritor humano elaborar, qual será o papel dos autores?

Por outro lado, a ficção científica permeou quase todos os aspectos de nossas vidas e da sociedade. Paradoxalmente, isso diluiu sua identidade como um gênero literário distinto, dificultando o sucesso dos escritores de ficção científica à medida que sua influência continua se espalhando.

A ficção científica chinesa contemporânea é notavelmente diversa. Escritores mais jovens frequentemente trazem um conhecimento mais amplo, perspectivas mais abrangentes e uma compreensão mais matizada de como as tecnologias emergentes remodelam a sociedade e a experiência cotidiana.

P: Qual a sua visão sobre IA?

Liu Cixin: A maioria das pessoas está preocupada em saber se a IA substituirá ou conquistará a humanidade. Minha atitude é um tanto incomum: tenho grande apreço pela IA.

Os seres humanos são inerentemente limitados em inteligência, resistência física e capacidade cognitiva. Evoluímos para sobreviver na natureza, não para explorar o universo. Dadas as nossas capacidades atuais, a civilização humana jamais conseguirá expandir-se para além da Terra, rumo ao universo.

A IA, contudo, pode nos ajudar a superar essas limitações inatas. As maiores aspirações e os objetivos finais da humanidade poderão, em última análise, ser alcançados com a IA como catalisadora. A IA aponta para o futuro da civilização terrestre. Esse futuro pode não pertencer aos humanos, mas ainda assim será significativo.

Na minha rotina pessoal, raramente uso IA. Trato-a principalmente como uma ferramenta de busca avançada. Nunca a usei para escrever ficção. A maior parte do meu tempo criativo é dedicada ao desenvolvimento de conceitos para histórias, e a IA ainda não consegue gerar ideias genuinamente originais e inovadoras que nunca existiram antes.

P: Como devemos nos preparar para uma possível singularidade tecnológica?

Liu Cixin: Pelo que entendi, a singularidade se refere a um ponto em que a inteligência da IA ​​supera rapidamente a dos humanos, provocando mudanças inimagináveis ​​em todas as formas existentes da sociedade humana, bem como em nossos sistemas políticos e econômicos. Mas esse cenário pode ser uma simplificação excessiva.

Mesmo que a IA avance nessa velocidade, a humanidade ainda tem muitas cartas na manga e pode tomar diversas medidas para se proteger de consequências negativas. Mais provavelmente, tecnologias relacionadas, como a integração humano-máquina e as interfaces cérebro-computador, também avançarão rapidamente junto com a IA. Podemos então ver humanos e IA se fundindo cada vez mais. Como diz o ditado: se não podemos competir com ela, podemos aprender a nos integrar a ela.

P: Quais são suas esperanças para o futuro da exploração espacial?

Liu Cixin: Espero que a humanidade viaje cada vez mais longe no espaço. Desde o pouso da Apollo 11 na Lua, o espaço parece cada vez mais ao nosso alcance. Espero que possamos explorar o espaço profundo, viajar para Marte e o cinturão de asteroides, e alcançar corpos celestes mais distantes, incluindo as luas de Júpiter. Devemos continuar olhando para fora, almejando os confins do universo observável.

Se eu viajasse para o espaço, minha prioridade seria encostar meu rosto numa janela e contemplar a Terra. Se eu pudesse testemunhar apenas um momento no universo, gostaria de presenciar o surgimento de uma civilização verdadeiramente inteligente — para confirmar que não estamos sozinhos e que a comunicação entre espécies é possível.

Agora nos encontramos em 2026, o mesmo ano em que, no livro "O Problema dos Três Corpos", a humanidade se encontra em seu momento de maior perplexidade e medo diante de uma crise extraterrestre. Felizmente, a realidade nos poupou de tal catástrofe civilizacional, embora novos desafios continuem surgindo no mundo todo.

Enquanto navegamos rumo ao amanhã, O Problema dos Três Corpos permanece um capítulo vital em nossa história cultural. Aguardo ansiosamente a próxima geração de ficção científica visionária que capture o espírito de nossa era, traçando um rumo em direção ao mar infinito de estrelas.

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