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Opinião: três questões sobre a ação militar imprudente dos EUA contra a Venezuela

Fonte: Diário do Povo Online    12.01.2026 11h17

Em 3 de janeiro, quase mil pessoas participaram de uma manifestação e marcha na cidade de Nova York para protestar contra o ataque militar dos EUA contra a Venezuela. (Foto: Zhang Fengguo/Xinhua)

No dia 3 de janeiro, os Estados Unidos lançaram um ataque militar contra a Venezuela, e capturaram à força o presidente venezuelano Nicolás Maduro e sua esposa, transferindo ambos para fora do país. Especialistas e acadêmicos entrevistados pelo Diário do Povo Online afirmaram que as atitudes intimidadoras dos EUA violam gravemente a soberania nacional da Venezuela, pisoteiam abertamente o direito internacional e as normas básicas das relações internacionais, infringem os propósitos e princípios da Carta das Nações Unidas e ameaçam a paz e a segurança da América Latina e do Caribe.

De onde vem a justificativa?

“Essa ação não possui qualquer base legal nem justiça processual. Na essência, a operação militar dos EUA foi uma invasão armada a outro país, dissimulada como uma suposta ‘aplicação da lei doméstica’.” Foi o que afirmou Sun Yanfeng, diretor do Instituto de Estudos Latino-Americanos do Instituto Chinês de Relações Internacionais Contemporâneas, em entrevista ao Diário do Povo Online.

Há 81 anos, a comunidade internacional, sobre as ruínas do pós-guerra, construiu uma ordem internacional centrada na ONU, estabelecendo os princípios fundamentais das relações internacionais contemporâneas, como a igualdade soberana dos Estados, a proibição do uso ou da ameaça do uso da força e a não intervenção em assuntos internos de outras nações. Segundo Sun Yanfeng, a interferência militar dos EUA nos assuntos internos de outros países e a violação da soberania da Venezuela representam um flagrante desrespeito aos propósitos e princípios da Carta da ONU, ao direito internacional e às normas básicas das relações internacionais.

“A Carta das Nações Unidas exige que os Estados-membros resolvam disputas por meios pacíficos. A Resolução 2625 da Assembleia Geral sistematiza princípios como a não intervenção, a igualdade entre Estados e a proibição do uso da força. Realizar uma ação militar transfronteiriça unilateral sem autorização da ONU ou de mecanismos regionais de segurança ultrapassa uma linha vermelha”.

Essa foi a análise adicional de Guo Cunhai, diretor do Departamento de Estudos Sociais e Culturais do Instituto de Estudos Latino-Americanos da Academia Chinesa de Ciências Sociais. Ele destacou ainda que o ataque dos EUA à Venezuela também constitui um impacto direto sobre o direito internacional e sobre o princípio de não intervenção estabelecido na Carta da Organização dos Estados Americanos (OEA).

Após o ocorrido, vários países latino-americanos manifestaram apoio à Venezuela. No dia 4, os governos da Colômbia, Brasil, Chile, México, Uruguai e Espanha divulgaram uma declaração conjunta sobre a situação venezuelana, afirmando que a ação militar unilateral contra o país cria um “precedente extremamente perigoso” para a paz e a segurança regionais. Os seis países expressaram profunda preocupação e oposição, defendendo a resolução pacífica da crise por meio do diálogo e de negociações.

No dia 6 de janeiro, no horário local, a OEA realizou uma reunião extraordinária sobre a situação da Venezuela, na qual representantes de diversos países condenaram veementemente o ataque militar dos EUA. Segundo os participantes, a ação das forças armadas norte-americanas “ultrapassou o limite” e constitui uma grave violação da soberania venezuelana.

O hemisfério de quem?

Após o ataque militar à Venezuela, o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, declarou publicamente: “Este é o nosso hemisfério”.

Por muito tempo, os Estados Unidos trataram a América Latina e o Caribe como seu “quintal”. Em dezembro de 1823, o então presidente James Monroe lançou o slogan “A América para os americanos”, dando início à intervenção dos EUA nos assuntos latino-americanos. Em 2013, o então secretário de Estado John Kerry anunciou, em uma reunião da OEA, que a Doutrina Monroe havia terminado. No entanto, a interferência dos EUA na América Latina e no Caribe jamais cessou.

Em 2025, a Estratégia de Segurança Nacional dos EUA apresentou pela primeira vez, de forma sistemática, a chamada “Doutrina Donroe”, deixando claro que o Hemisfério Ocidental é a principal região estratégica que os EUA precisam “administrar”.

Segundo Sun Yanfeng, o ataque militar dos EUA à Venezuela é um reflexo de sua tentativa de acelerar o controle sobre o Hemisfério Ocidental. Por meio do controle de rotas estratégicas, minerais-chave e recursos essenciais, da exclusão de cooperação normal entre países da região e atores externos, e da construção de círculos ideológicos alinhados às políticas do governo norte-americano na América Latina e no Caribe, os EUA tentam retomar o domínio absoluto sobre o hemisfério.

“Trata-se de uma típica política de força e de intimidação unilateral”, afirmou.

No dia 3, o presidente do Chile, Gabriel Boric, declarou: “Hoje é a Venezuela; amanhã pode ser qualquer país”. Para Guo Cunhai, essa visão não representa apenas a posição do Chile, mas reflete a ansiedade generalizada dos países latino-americanos.

Ele avaliou que o maior impacto da ação militar dos EUA é a criação de um “efeito dissuasório”, enfraquecendo a segurança da soberania dos países da América Latina e do Caribe. Além disso, o aumento dos riscos regionais pode intensificar problemas como fluxos de refugiados e crimes transnacionais organizados.

Sun Yanfeng afirmou que o ataque militar dos EUA à Venezuela representa uma grave ameaça à soberania, à segurança e à paz regional dos países latino-americanos e caribenhos. “Se as ações dos EUA não forem contidas e condenadas, no futuro o país poderá replicar esse comportamento autoritário em qualquer outro lugar ou área, causando danos subversivos à ordem internacional existente”.

Guo Cunhai acrescentou: “Seja o ‘novo monroísmo’ ou a ‘Doutrina Donroe’, a essência é a mesma: reconstruir a ordem do Hemisfério Ocidental. Uma ordem baseada nas regras dos EUA e dominada exclusivamente por eles”.

Os EUA conseguem “transformar” o petróleo venezuelano em lucro?

A Venezuela é extremamente rica em recursos energéticos. Suas reservas comprovadas de petróleo (incluindo petróleo pesado) chegam a 300 bilhões de barris, as maiores do mundo, e o país é um dos membros fundadores da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP). Os EUA afirmaram que passarão a “assumir o controle” da indústria petrolífera venezuelana.

Guo Cunhai observou que a prática dos EUA de vincular ações militares a arranjos políticos e à reestruturação de recursos reflete um pensamento de divisão de esferas de influência, sendo uma típica aplicação da chamada “Doutrina Donroe”.

No último ano, os preços internacionais do petróleo permaneceram em níveis baixos. Em 2025, o preço dos contratos futuros do petróleo Brent caiu mais de 18% ao longo do ano, a maior queda anual desde 2020. Até o fechamento do dia 8, o preço do petróleo leve negociado na Bolsa Mercantil de Nova York para entrega em fevereiro foi de 57,76 dólares por barril, enquanto o Brent para entrega em março fechou a 61,99 dólares por barril.

Segundo Guo Cunhai, no médio e longo prazo, mesmo que empresas norte-americanas consigam entrar na Venezuela, será necessário um período para restaurar a capacidade produtiva, além de um ambiente político estável para garantir a produção. Do ponto de vista interno venezuelano, a modernização das instalações de extração e das tecnologias também requer tempo e não pode ser feita de uma só vez.

Sun Yanfeng concluiu que, diante da instabilidade na Venezuela e dos altos custos de exploração do petróleo, a ideia de transferir à força os riscos do investimento para as empresas petrolíferas e de gás dos EUA pode ser apenas um “desejo unilateral” do governo norte-americano.

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