
Funcionários realizam treinamento e coleta de dados em um robô humanoide no Centro de Treinamento de Dados para Robôs Humanoides de Qingdao, no distrito de Laoshan, em Qingdao, província de Shandong, leste da China, em 23 de março de 2026. (Foto: Li Ziheng/Xinhua)
Quando um recém-nascido se mexeu durante a noite, um sensor preso à borda da fralda entrou silenciosamente em ação, detectando odores, captando sensações e registrando dados.
Em questão de minutos, a pulseira da cuidadora vibrou, recebendo as informações mais recentes sobre o bebê, incluindo a necessidade de trocar a fralda e sinais de desconforto estomacal do lactente.
Este dispositivo, desenvolvido em conjunto por uma empresa de serviços domésticos da província de Anhui (leste da China) e uma empresa de inteligência artificial, combina a detecção de umidade com sensores de odor de alta sensibilidade.
"Ele monitora os padrões digestivos dos bebês e envia os dados para uma plataforma digital, onde são cruzados com os registros de alimentação mantidos pelos cuidadores", afirmou Ding Youmei, presidente da Wansao, a empresa de serviços domésticos sediada em Anhui. "O resultado é um perfil de saúde personalizado que auxilia babás e pais a monitorar os bebês com maior precisão."
A empresa espera que, futuramente, essa tecnologia possa atender a outro grupo demográfico: os idosos frágeis que necessitam de cuidados constantes.
Tais experimentos ilustram o uso crescente da inteligência artificial no vasto setor de serviços domésticos, um setor tradicionalmente intensivo em mão de obra.
Na China, onde o setor de serviços domésticos já empregava mais de 30 milhões de pessoas e gerou um valor de mercado superior a 1,2 trilhão de yuans (cerca de 173,43 bilhões de dólares americanos) em 2024, a chegada dos algoritmos deverá remodelar a maneira como as famílias buscam auxílio e como esse auxílio é prestado.
"Com base em anos de dados do setor, começamos a desenvolver plataformas digitais impulsionadas por grandes modelos de linguagem e bases de conhecimento privadas", disse Ding à Xinhua. "Além de responder a dúvidas tanto das famílias quanto dos cuidadores, essas plataformas também são capazes de gerar perfis digitais detalhados dos trabalhadores domésticos, permitindo que o sistema conecte clientes a candidatos adequados, extraídos de bancos de dados que contêm dezenas de milhares de prestadores de serviços."
Os robôs também estão entrando em cena. Em casas de repouso e residências particulares de diversas cidades chinesas, um robô de companhia, conhecido como Xiaoli, monitora a pressão arterial e os níveis de oxigênio, alerta os familiares quando detecta situações incomuns e oferece companhia e conversa aos residentes que se sentem solitários.
"Com foco nas necessidades dos idosos em termos de segurança, monitoramento de saúde e companhia, desenvolvemos duas versões do robô: uma para instituições de assistência a idosos e outra para cuidados domiciliares, e continuaremos a aprimorar suas capacidades de serviço", afirmou Li Yang, da Seelink Technology Co., Ltd., sediada em Beijing e desenvolvedora do Xiaoli.
Experimentos mais ambiciosos estão em andamento. Engenheiros da Zerith, uma empresa de robótica sediada em Hefei, treinaram um robô humanoide sobre rodas num apartamento simulado, ensinando-o a limpar mesas, dobrar roupas e aspirar pisos revestidos.
Projetado com um chassi sobre rodas, este robô é, por enquanto, empregado principalmente em hotéis, aeroportos e centros comerciais, ambientes controlados onde tarefas repetitivas fornecem dados de treinamento úteis.
"Mas encaramos a vida doméstica como o campo de prova definitivo", disse Yang Wei, diretor de branding da empresa.
Essa tendência no setor de serviços domésticos impulsionado pela tecnologia está sendo estimulada pelo aumento da demanda e pelo apoio governamental.
A demografia está remodelando a demanda na China. Até o final de 2024, a China contava com mais de 310 milhões de pessoas com 60 anos ou mais, o que representa cerca de 22% da população. À medida que os núcleos familiares diminui de tamanho, a necessidade de serviços de assistência a crianças e idosos dispara.
O mercado chinês de robôs para assistência a idosos ultrapassou a marca de 30 bilhões de yuans em 2024 e a expectativa era de que atingisse 50 bilhões de yuans em 2025, de acordo com um relatório divulgado pelo Zero Power Intelligence Group, uma empresa de pesquisa do setor na China.
"Há poucos anos, apenas um punhado de empresas desenvolvia robôs de companhia inteligentes para a assistência a idosos", observou Li. "Agora, o número de novos participantes está crescendo rapidamente, e o setor está se tornando cada vez mais dinâmico."
O apoio governamental é outro fator propulsor. O governo incentiva a transformação digital do setor de serviços domésticos, promovendo o uso de big data, inteligência artificial (IA) e robótica para aumentar a eficiência e expandir a oferta de serviços.
Em abril de 2025, o ministério do Comércio da China, em conjunto com outros oito departamentos governamentais, emitiu um documento de política pública para apoiar a modernização do consumo de serviços domésticos.
Os departamentos instaram a aceleração da transformação digital do setor, incluindo o uso de big data e IA para criar perfis de usuários e oferecer serviços mais personalizados, bem como o aproveitamento de tecnologias emergentes, como a robótica, para expandir os cenários de aplicação nos serviços domésticos.
"Começamos a experimentar plataformas digitais e programas-piloto que conectam empresas de tecnologia a prestadores de serviços domésticos", afirmou Hu Jing, funcionário do Departamento de Comércio de Hefei.
No entanto, a promessa de um lar movido a inteligência artificial ainda esbarra em limites práticos, conforme observaram especialistas do setor. Os robôs continuam caros; um modelo de companhia, como o Xiaoli, ainda custa cerca de 10.000 yuans ou mais.
Além disso, muitas máquinas realizam apenas tarefas simples, ao passo que ambientes domésticos complexos exigem percepção e destreza muito mais sofisticadas. Os dados representam outro ponto crítico. O trabalho doméstico envolve informações pessoais altamente sensíveis, e a falta de padrões unificados no setor complica o compartilhamento e o processamento desses dados.
"Mas sua trajetória é clara e controlável", disse Yang. "É provável que as máquinas evoluam de assistentes especializados em ambientes comerciais para companheiros domésticos confiáveis. Se isso acontecer, a antiga profissão de governanta poderá, em breve, ganhar um parceiro distintamente digital."