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Adam Tooze: o “aperto da China” como contrafactual político, uma crítica

Fonte: Diário do Povo Online    12.08.2026 15h10

Nota do editor: O historiador da Universidade de Columbia, Adam Tooze, publicou recentemente um artigo intitulado "O 'Aperto Chinês' é um Discurso Político Baseado em Hipóteses Contrafactuais", no qual refuta as teses que tentam atribuir à China, de forma simplista, a responsabilidade pelas complexas crises globais e pelos desafios de desenvolvimento enfrentados por diversos países. A seguir, apresentamos uma compilação dos principais argumentos do autor para os nossos leitores.

Em Chartbook 464, Adam Tooze analisa a narrativa emergente do alegado “aperto da China” (China squeeze), argumentando que ela é, ao invés de uma interpretação sólida da história econômica, antes um instrumento de caráter político e retórico. Ele distingue três modos temporais do discurso sobre o “choque da China”: o retrospectivo (1.0, sobre os mercados de trabalho dos EUA), o prospectivo (2.0, sobre a indústria automobilística europeia) e o contrafactual (o “aperto”). É justamente o terceiro — recentemente desenvolvido pelos economistas indianos Chatterjee e Subramanian — que Tooze considera o mais ambicioso e, ao mesmo tempo, o mais enganoso.

O argumento do “aperto” funciona da seguinte maneira: a China não apenas conquistou a manufatura de alta qualificação (produzindo o Choque 2.0), como também manteve persistentemente um enorme excedente na produção de bens de baixa qualificação e intensivos em mão de obra (vestuário, couro, têxteis e calçados). Segundo os autores, isso prejudica os países em desenvolvimento mais pobres, que “deveriam” ocupar esse espaço. O parâmetro normativo usado por eles é um caminho de desenvolvimento “canônico”: os países ricos abandonam os setores de baixa qualificação, permitindo que os países mais pobres avancem gradualmente na cadeia de valor. Eles também afirmam que, idealmente, as exportações de baixa qualificação deveriam ser distribuídas aproximadamente de acordo com a participação de cada país na força de trabalho mundial de baixa qualificação. Por esse critério, as exportações chinesas seriam excessivamente elevadas, “acumulando” dezenas de milhões de empregos e comprimindo as oportunidades do Sul Global.

Tooze contesta ambos os pilares desse argumento. Primeiro, ele observa que os caminhos de desenvolvimento não formam uma fila natural nem representam uma repetição mecânica da mesma sequência histórica. Como afirma David Fishman, “o desenvolvimento não é uma fila” — ele é sempre político, contextual e dependente da trajetória histórica. O sucesso da China nos segmentos de baixa qualificação não é uma anomalia causada por políticas como câmbio artificialmente favorável ou subsídios industriais; ele se baseia em vastas redes de cadeias de suprimentos, efeitos de concentração industrial e uma redefinição do ciclo de produtos (como o fast fashion, produzido a uma velocidade e custos ambos sem precedentes). Classificar isso simplesmente como “baixa qualificação” já seria, por si só, uma denominação equivocada. Segundo, a suposição de que as exportações deveriam refletir a proporção populacional de cada país contradiz toda a experiência histórica; uma grande população nunca garantiu automaticamente uma participação correspondente no comércio global.

A verdadeira ironia, observa Tooze, é que Subramanian e seus coautores defenderam exatamente esse ponto em outros trabalhos — especialmente em suas análises críticas sobre o fracasso do desenvolvimento indiano. Quando a Índia é comparada à China, o quadro muda drasticamente: a China está muito acima da linha “esperada”, mas a Índia, com uma população de tamanho semelhante, também é uma anomalia — só que no sentido oposto. O que emerge não é uma suposta trapaça chinesa, mas a profunda incapacidade da Índia de gerar empregos formais na manufatura. A própria análise de Kapur e Subramanian lista diversas limitações internas — negligência da agricultura, regulamentações trabalhistas introduzidas prematuramente, infraestrutura deficiente, gargalos relacionados à terra e à energia, um efeito de “doença holandesa” provocado pelo crescimento do setor de serviços e fatores sociais que restringem a participação feminina na força de trabalho — que impediram a Índia de aproveitar oportunidades, mesmo quando a China deixou espaços de exportação disponíveis após a crise financeira global.

Assim, Tooze argumenta que o “aperto da China” representa uma patologização unilateral da China, ignorando as profundas crises internas dos países que promovem essa narrativa. Seja analisando a classe trabalhadora americana, a indústria automobilística alemã ou o mercado de trabalho desequilibrado da Índia, os principais obstáculos são domésticos — e não a competição chinesa. Projetar a culpa para o exterior significa normalizar o restante do mundo e tratar a China como uma exceção anormal.

Tooze conclui, enquadrando esse discurso em termos conceituais: seguindo Reinhart Koselleck, ele o chama de um “conceito assimétrico de combate” — uma intervenção mobilizadora destinada a estimular as elites ocidentais e indianas, e não uma descoberta empírica neutra. Se essa narrativa servir para impulsionar reformas internas, tudo bem; mas não devemos confundi-la com uma descrição objetiva da história econômica.

Por fim, Tooze estabelece um paralelo interessante com o próprio “partido industrial” da China (industrial party) — um movimento nacionalista online que se dedica a histórias contrafactuais (como imaginar o transporte de tecnologias modernas de volta à dinastia Ming). A mensagem desse grupo, porém, é voltada para dentro: aceitar as duras realidades do desenvolvimento baseado na realpolitik e não se iludir com um moralismo liberal. Na linha temporal imaginária criada por eles, uma China poderosa não representa nenhum choque — ela é simplesmente um fato definidor da modernidade.

Em essência, Tooze nos convida a resistir à tentação de explicar os problemas de desenvolvimento do mundo exclusivamente pelo sucesso da China. O “aperto” só é real na medida em que reflete as falhas políticas e institucionais daqueles que se sentem pressionados. A solução não está em repreender Beijing, mas em enfrentar as limitações internas.

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