Hélio Rocha
Ano após ano, nós, ocidentais, acompanhamos as festividades chinesas de fins de janeiro, princípios de fevereiro, quando os chineses celebram a chegada do seu ano novo, contado atualmente em 4718 ciclos e sempre lhe sendo atribuído um animal como símbolo, desta vez o rato. O ciclo se fecha em datas diferentes da ocidental porque o sistema milenar chinês é baseado na contagem lunissolar, diferente daquele que conta 2020 anos desde o nascimento do líder religioso Jesus de Nazaré, cuja medição é feita por ciclos solares.
Entretanto, mesmo a contagem do tempo também está relacionada a aspectos culturais e, no caso brasileiro, também há uma particularidade. Por aqui, há uma passagem de ano formal e a outra informal, que, na prática, é a que fica valendo. O calendário brasileiro começará, de verdade, agora: depois das festividades de Carnaval. A festa popular mais importante do Brasil, que junto com o dia dos mortos mexicano é a mais importante da América Latina, marca a data quando começam as atividades escolares, quando as empresas, de fato, deixam a ressaca de início de ano, quando começam os programas de TV favoritos dos brasileiros e quando se iniciam os campeonatos de futebol, tão queridos em todos os países ocidentais.
Originalmente o Carnaval já pertencia a um calendário paralelo àquele que conta meses e anos. A Igreja Católica, desde o que chamamos “Idade Média”, mais ou menos equivalente ao período desde a dominação mongol até princípios da dinastia Ming na China, tinha seu próprio calendário. Da data a que é atribuída a morte de Jesus, conta-se quarenta dias antes e esse período é chamado de Quaresma, uma época de reclusão e sacrifícios, semelhante ao ramadã muçulmano. No entanto, aos dias anteriores a esta época, eram permitidas as últimas festas e, por antecederem os dias austeros, elas eram celebradas com mais intensidade. Assim surgiu o Carnaval europeu, existente principalmente na Itália, famosa pelas festas a fantasia e máscaras em Veneza.
No Brasil, a cultura foi trazida pelos portugueses e foi enriquecida pelos povos negros que aqui passaram a viver. Mesmo oprimidos pelo trabalho escravo, a eles também era permitido festejar, dada a permissividade das festas carnavalescas, e assim a data passou a simbolizar a expressão da cultura africana no dia a dia da cultura brasileira. As fantasias da Europa passaram a retratar também rainhas, reis e mitos africanos, as músicas passaram a incorporar os batuques e ritmos iorubás, bantos e malês, os povos que para cá foram trazidos da África. Desta forma, numa festa que permitia aos africanos viver e exibir suas crenças e ritos, foi nascendo e sendo assimilado o samba.
A festa ganhou as ruas e logo se formaram desfiles, e assim foi surgindo o imenso desfile de Carnaval das Escolas de Samba, que ocorre às sextas-feiras e sábados de Carnaval em São Paulo, e aos domingos e segundas-feiras no Rio de Janeiro. Além de outras festividades dispersas pelo país.
Num país em que por muitos anos a liberdade dos povos foi cerceada pela religiosidade conservadora, problema com o qual a China não convive desde a Revolução de 1949 e implantação do Estado laico, o que chegou a Hong Kong e Macau após os seus retornos em 1997 e 1999, a festa de Carnaval ganhou a importância da liberdade cultural. Por isso, é um marco na cultura brasileira, pelo qual o povo espera antes de começar a viver o ano corrente, ainda que este tenha começado em 1º de janeiro.
Portanto, podemos dizer que, na prática, o “ano novo brasileiro” começa em 2020, e, assim como o ano chinês recebe o título de um animal, aqui no Brasil, sobretudo no Rio de Janeiro, cada ano ganha a alcunha da Escola que mais encanta o público nos quatro desfiles. Em 2018, foi o ano da Tuiuti e seu enredo “Meu deus, meu deus, está acabada a escravidão?”. Em 2019, foi o ano da Mangueira e sua “História não contada”. O que será de 2020, saberemos após o Carnaval.
Feliz ano novo brasileiro!
(O autor é jornalista Brasil 247 e Plurale)