Nota de edição: No contexto do Ano Cultural Brasil-China 2026, o Museu Nacional da China receberá, entre os dias 10 de junho e 11 de outubro, a mostra “O Brasil de Portinari”.É a primeira vez que as obras de Candido Portinari serão exibidas na China. João Candido Portinari, filho do famoso pintor brasileiro e responsável pelo Projeto Portinari, escreveu um artigo recentemente para o Diário do Povo, intitulado “A ‘Arma’ da Paz: O Legado Cultural de Portinari na China”. Apresentamos abaixo alguns trechos selecionados do artigo para apreciação dos leitores.
Por João Candido Portinari
Se alguém me pedisse para escolher minha pintura favorita entre as obras do meu pai, Candido Portinari, trazidas para esta exposição na China, seria muito difícil. Se eu fosse obrigado a escolher, seria “Roda Infantil”, que mostra crianças dançando nas ruas de Brodowski, sua cidade natal em São Paulo. Ali, ele começou sua carreira, pintando uma estrela na igreja matriz sob orientação de artistas italianos itinerantes. Sua infância foi marcada pelo trabalho rural, experiências que lhe ensinaram o valor do trabalho, da pobreza e da dignidade, e inspiraram-no a retratar o sofrimento dos retirantes do Nordeste. Como disse meu pai: “Vi o sofrimento deles. Como poderia não pintá-lo?”

Roda Infantil. (Fonte: o Projeto Portinari)
Essa cidade é Brodowski, no interior de São Paulo, que na época tinha apenas três ruas. Meu pai nasceu ali em 1903, filho de imigrantes italianos. Sua infância não teve nenhum dos privilégios de uma educação artística formal; ao contrário, foi vivida no trabalho nas lavouras de café e na vida rural. Foi nesse ambiente que ele compreendeu pela primeira vez o que significavam o trabalho, a pobreza e a dignidade. Ele viu com seus próprios olhos os retirantes do Nordeste brasileiro, fugindo da seca e da fome, passando por sua cidade natal. Essas cenas deixaram uma marca indelével em seu coração. Mais tarde, ele me disse: “Vi o sofrimento deles. Como poderia não pintá-lo?” Muitas pessoas me perguntam por que sua obra é compreendida por pessoas de diferentes origens culturais. Costumo responder com uma frase de Liev Tolstói: “Se queres ser universal começa por pintar a tua aldeia.” Meu pai fez exatamente isso: partindo da experiência mais concreta e local, ele gradualmente alcançou questões humanas universais.
Por isso, a presente exposição inclui obras que mostram a “Gênese Afetiva” de sua infância, o “Drama Social” que reflete a história do Brasil, o “Imaginário Popular” das crenças e costumes brasileiros, e o “Tratado Técnico”, documentando seu processo criativo. Entre suas criações, os murais para a ONU – “Guerra” e “Paz” – são os mais importantes. Embora não possam estar fisicamente na exposição, serão apresentados por projeção imersiva. Em “Guerra”, vemos mães com filhos mortos, órfãos e desespero; em “Paz”, tons quentes mostram crianças dançando, pessoas de diferentes raças trabalhando e celebrando, transmitindo felicidade nascida da solidariedade.

Paz. (Fonte: o Projeto Portinari)
A criação desses murais na década de 1950 enfrentou desafios: meu pai, membro do Partido Comunista, foi impedido de entrar nos EUA, precisou dividir os murais em 28 painéis no Brasil e ainda sofreu envenenamento por chumbo. Mesmo assim, continuou, considerando essas obras sua mensagem à humanidade, e faleceu em 1962 devido ao envenenamento. Estas pinturas são seu manifesto contra a barbárie, um grito eterno em defesa da dignidade humana.
Portinari tinha laços com a China; durante seu exílio no Uruguai e na Argentina, poetas e escritores sugeriram levar sua obra para lá, mas ele faleceu antes que isso acontecesse. Por volta de 2000, propus trazer suas obras para a China. Mais de 50 obras foram finalmente exibidas no Museu Nacional da China, em uma apresentação sem precedentes.
Sempre acreditei que o público chinês compreenderá a obra de meu pai, devido à busca pela paz, respeito ao trabalho e à terra, importância da família, e representação verdadeira do país e do povo. Meu pai dizia: “A humanidade merece uma vida mais digna. Minha arma é a pintura.” Sua arte foi prática de vida, forjada pela paz, justiça social, fraternidade e respeito à vida. Ele se envolveu na política não por teoria, mas pelo que testemunhou na infância. Sua arte traduz experiência humana concreta: dor, sorriso, dignidade e luta. O dramático e o poético coexistem, assim como sofrimento e ternura.

Uma caligrafia do Museu Nacional da China. (Foto fornecida por João Candido Portinari)
Recentemente, recebi um presente do Museu Nacional da China: uma caligrafia com um antigo provérbio chinês: “A amizade verdadeira não conhece distâncias; mesmo a dez mil li, somos vizinhos.” Essa frase me tocou profundamente, pois resume quase todos os nossos esforços das últimas décadas. Geograficamente, estamos separados por dez mil li; mas em valores e sentimentos, somos vizinhos.
Ao olharmos para as obras que chegarão a Beijing, vemos não apenas o Brasil que queremos mostrar aos nossos irmãos e irmãs chineses; vemos também uma ética global urgentemente necessária, que coloca o ser humano acima de todos os conflitos. Que estas pinturas se tornem pontes de luz, provando que a arte, em sua essência mais pura, é a única linguagem capaz de unir um mundo que a política tenta dividir.
(Autor: filho do famoso pintor brasileiro Candido Portinari e responsável pelo Projeto Portinari.)